A Importância Cultural da Lavagem do Bonfim
A Lavagem do Bonfim iluminou as ruas de Salvador na última quinta-feira (15), reforçando as profundas ligações entre fé, cultura e identidade afro-brasileira. O trajeto, que se estendeu da Igreja da Conceição da Praia até a Basílica do Senhor do Bonfim, foi pontuado pela vibrante presença de blocos que celebram a herança africana, simbolizando a rica história da festa. Este ano, a celebração contou com o suporte do Programa Ouro Negro, uma iniciativa do Governo da Bahia que busca fortalecer a cultura popular e a identidade do estado, garantindo a participação de 11 entidades na festividade de 2026.
Reconhecida como patrimônio imaterial do Brasil, a Lavagem do Bonfim é uma celebração marcada pelo sincretismo religioso e pela expressividade cultural da comunidade negra. Ao som dos tambores e dos cânticos, os grupos afros trouxeram ao cortejo um ritmo pulsante que reverberou ancestralidade e resistência, destacando o papel vital das agremiações na construção desta tradição ao longo dos anos.
O Retorno do Olodum e a Celebração da Tradição
Dentre os grandes momentos deste ano, destaca-se o retorno do Olodum à Lavagem do Bonfim, após um hiato de 25 anos, um feito simbólico que marca um novo capítulo na história da festa. Com uma apresentação composta por 120 percussionistas, dançarinos e alegorias, o bloco voltou a vibrar nas ruas do circuito da festa.
Segundo Marcelo Gentil, presidente institucional do Olodum, o apoio do Programa Ouro Negro foi fundamental para a realização dessa volta. “Estamos retornando a uma tradição muito importante. Como disse Milton Nascimento, o artista deve estar onde o povo está, e o povo está na Lavagem do Bonfim. Essa volta é fruto do apoio estratégico do Programa Ouro Negro. Sem esse suporte, não estaríamos aqui”, afirmou Gentil.
A Emoção do Povo e a Preservação da Cultura
Quando o Olodum entrou no percurso, o som contagiante dos tambores atraiu uma multidão, transformando as ruas do Comércio em um mar de alegria e celebração. Jéssica Nascimento, assistente social de 40 anos, expressou sua emoção ao ver o bloco novamente na festa. “O Olodum faz parte da minha história e da cidade. Ver o bloco de volta ao Bonfim é algo emocionante. É gratificante e nos enche de orgulho viver isso”, compartilhou.
Para aqueles que vivenciam a festa de perto, o apoio do Programa Ouro Negro tem um impacto significativo na preservação dessas expressões culturais. Murilo Câmara, responsável pelos blocos Ki Beleza e Samba & Folia, enfatiza que a Lavagem do Bonfim sempre foi um espaço de afirmação negra, e que isso se fortaleceu com a ajuda do governo do estado. “Historicamente, este desfile étnico foi promovido pelo povo preto. Com o apoio do Ouro Negro, muitos grupos que estavam em declínio conseguiram renascer e reafirmar sua presença”, afirmou Câmara.
A Memória e a Luta dos Blocos Afro
O Programa Ouro Negro também é um símbolo da luta travada por esses blocos ao longo dos anos. O cantor Tonho Matéria, que lidera o bloco afro Mangangá Capoeira, comentou que essa política representa uma mudança significativa na relação entre o governo e as manifestações de matriz africana. “O Ouro Negro surge a partir de uma luta e traz uma política de igualdade, reconhecendo os blocos além do Carnaval. É um trabalho contínuo, que garante a preservação das expressões culturais durante todo o ano”, observou.
No que diz respeito ao Ilê Aiyê, a política se alinha à sua trajetória de resistência e afirmação do povo negro. Edmilson Lopes, diretor da associação, ressaltou que o apoio do Ouro Negro permite que blocos que estavam afastados da festa possam retornar, fortalecendo a ação cultural que também promove o desenvolvimento social. “O programa facilita a volta de grupos que estavam distantes, ampliando a importância cultural e social dessas entidades”, destacou Lopes.
O Papel do Programa Ouro Negro
O Programa Ouro Negro, uma iniciativa do Governo da Bahia, tem como objetivo valorizar os blocos afro, afoxés, grupos de samba, reggae e blocos de índio. Com um investimento recorde de R$ 17 milhões em 2026, o programa assegurou que tradição e ancestralidade sejam protagonistas não só no Carnaval, mas em todas as festividades populares. Na Lavagem do Bonfim, a iniciativa reafirma sua importância como uma política pública essencial para a valorização, preservação e continuidade das manifestações culturais de matriz africana, fortalecendo a identidade e a memória da população baiana.

