Bloco Sul-Americano Fortalece Relações Comerciais
O Mercosul deu um passo significativo em sua trajetória de inserção no comércio internacional ao formalizar, no último sábado (17/01/2026), em Assunção, um acordo de livre comércio com a União Europeia. Com mais de 20 anos de negociações, este tratado estabelece a maior área de livre comércio do planeta, abrangendo um mercado estimado em até 750 milhões de consumidores. Essa conquista reposiciona o bloco sul-americano no cenário mundial, indicando que o foco comercial não se limita à Europa, mas também se expande para negociações com países do Oriente Médio, da Ásia e da América do Norte.
O presidente paraguaio, Santiago Peña, que atualmente ocupa a presidência temporária do Mercosul, sublinhou que o acordo com a UE marca apenas o início de um processo mais abrangente de integração econômica. Trata-se de tratativas já “avançadas” com os Emirados Árabes Unidos e um interesse estratégico em fortalecer laços com o Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Vietnã e, de maneira especial, com a China, reconhecida como parceira essencial para as economias latino-americanas. Peña também mencionou a possibilidade de um acordo de complementação econômica com o Canadá, reafirmando o compromisso do bloco com o multilateralismo e a diversificação de mercados.
A Cerimônia de Assinatura e o Papel do Multilateralismo
A cerimônia de assinatura em Assunção reuniu representantes de países sul-americanos e europeus, que ressaltaram a importância de um comércio baseado em regras diante de um cenário internacional marcado por protecionismos e tensões geopolíticas. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, comentou que o tratado reafirma a crença no direito internacional e no comércio justo, sendo uma resposta ao uso de tarifas como ferramenta de coerção política. Para Costa, o timing do acordo é perfeito e simboliza uma aposta na cooperação e prosperidade compartilhada.
Ursula von der Leyen, presidenta da Comissão Europeia, destacou que a parceria entre os continentes fortalece a maior zona de livre comércio do mundo. Para ela, a escolha de priorizar o “comércio justo em vez de tarifas” se traduz em parcerias duradouras e em maior previsibilidade para investidores e empresas dos dois blocos.
Reações e Expectativas dos Países do Mercosul
O presidente argentino, Javier Milei, caracterizou o tratado como um ponto de partida para novas oportunidades comerciais, ressaltando que sua efetivação deve preservar o espírito liberal do documento. Milei advertiu que a introdução de cotas ou mecanismos restritivos poderia comprometer os ganhos econômicos esperados.
Por outro lado, o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, descreveu o acordo como uma associação estratégica com potencial para melhorar a qualidade de vida da população, especialmente em tempos de incertezas globais. Para Orsi, investir em regras claras e na integração comercial é fundamental para o desenvolvimento e uma ferramenta eficaz no combate a desafios transnacionais, como o narcotráfico.
Impactos Econômicos no Brasil: Projeções e Dificuldades
Estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam que, com a implementação do acordo, o Brasil deverá aumentar seu acesso ao mercado global de importações, passando de 8% para 36%. Observa-se que a União Europeia representou 28% do comércio mundial em 2024. A entidade ressalta que 54,3% dos produtos negociados terão tarifas zeradas imediatamente na UE, enquanto o Mercosul terá um prazo de 10 a 15 anos para reduzir tarifas sobre uma parte significativa das importações europeias, permitindo uma transição gradual.
De acordo com a CNI, 82,7% das exportações brasileiras à UE entrarão no bloco sem tarifas logo no início da vigência do acordo. Contudo, o Brasil eliminará tarifas de apenas 15,1% das importações europeias instantaneamente, o que pode resultar em uma assimetria inicial.
Riscos e Desafios Estruturais
Apesar do otimismo manifestado por instituições, alguns especialistas levantam preocupações sobre os riscos estruturais. Análises sugerem que a competitividade dos produtos europeus de alto valor agregado pode ameaçar setores da indústria sul-americana, potencializando a desindustrialização. Entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) reconhecem o acordo como um marco para integração externa, mas alertam sobre a necessidade de enfrentar gargalos internos — como infraestrutura e custos logísticos — para que os benefícios se concretizem.
Aspectos Ambientais e Cooperação Tecnológica
Outro aspecto crucial do debate envolve os padrões ambientais impostos pela União Europeia. Especialistas afirmam que o acordo pode motivar os setores industriais e agrícolas do Mercosul a adotar normas de sustentabilidade mais rigorosas, abrindo espaço para a cooperação em áreas como descarbonização industrial e tecnologias de captura de carbono. Contudo, a eficácia dessa colaboração depende de políticas internas e mecanismos de transferência tecnológica, que precisam ser estabelecidos de maneira concreta.
Próximos Passos e Abertura Comercial
Com a assinatura do acordo formalizada, o texto seguirá para ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos países do Mercosul. A implementação comercial ocorrerá de forma gradual, condicionada à aprovação legislativa. Simultaneamente, o bloco sul-americano já está articulando novas frentes de negociação, destacando que o acordo com a UE representa um pilar, e não o limite de sua estratégia de abertura econômica.
Assim, o acordo Mercosul–União Europeia se apresenta como um marco histórico, reposicionando o multilateralismo no centro da agenda econômica em um mundo repleto de disputas comerciais. Ampliando o acesso a mercados, ele deve estimular investimentos e promover uma maior integração produtiva. No entanto, é vital que se desenvolvam políticas consistentes para evitar a dependência excessiva de exportações de produtos primários.

