Investigação Revela Ligação Perturbadora
As investigações sobre as fraudes do Banco Master e dos consignados do INSS têm gerado preocupação no Palácio do Planalto, especialmente por conta do empresário Augusto “Guga” Lima. Ele, que foi sócio do ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, surge como uma figura central que pode conectar o escândalo ao Partido dos Trabalhadores (PT). Ambos foram alvos de mandados de prisão preventiva na Operação Compliance Zero, que foi iniciada pela Polícia Federal em novembro do ano passado. Embora tenham conseguido a liberação sob monitoramento eletrônico, Lima e Vorcaro devem prestar depoimentos à PF entre 26 e 28 de janeiro.
Lima, que se associou ao Banco Master em 2020, é um personagem significativo na política do crédito consignado estabelecida por governos do PT na Bahia, através do programa CredCesta. Esta iniciativa, que se tornou uma das principais alavancas para a expansão do Banco Master, deriva da histórica Cesta do Povo, uma política social que oferece alimentos a preços subsidiados, com raízes que remontam aos anos 1970. Essa transição para um sistema de crédito, que ocorreu entre 2015 e 2018, pode ter implicações profundas nas finanças do estado e do banco.
O Papel do CredCesta nas Finanças
O CredCesta, que passou a operar como um cartão de crédito consignado, visava servidores ativos, aposentados e pensionistas. O empresário Guga Lima foi fundamental na operacionalização desse modelo, que permitia que os servidores adquirissem produtos essenciais, enquanto contribuíam com a geração de recebíveis de qualidade. Segundo um executivo do setor financeiro que preferiu não se identificar, Lima foi instrumental na integração do modelo de negócios ao sistema financeiro privado por meio do Banco Master.
A formalização do programa em 2018, sob a gestão do então governador Rui Costa (PT), ocorreu em parceria com Jacques Wagner, uma figura proeminente do PT na Bahia. O que antes era um projeto social, agora se transformou em uma plataforma robusta de crédito consignado, e Lima estabeleceu um acordo com o Banco Master para consolidar essa operação.
Replicação do Modelo de Negócios
A partir do acordo, o modelo de negócios criado pelo governo da Bahia começou a ser amplamente replicado pelo Banco Master, que passou a utilizar as carteiras de consignados como ativos financeiros em negociações com outros bancos e fundos de investimento. Essa estratégia não apenas fortaleceu a presença do produto no mercado, mas também possibilitou a expansão do CredCesta, que, em 2024, já estava disponível em 176 municípios de 24 estados.
No entanto, as investigações revelaram que a geração de consignados a partir de associações de servidores públicos, como a Asteba e a Asseba, está sendo questionada. Relatórios preliminares indicam que cerca de 74% dos contratos firmados pelo Banco Master não foram devidamente documentados, levantando suspeitas sobre a real capacidade dessas associações de gerar créditos compatíveis com os valores em questão.
Denúncias e Dificuldades na Investigação
O Banco Central e a Polícia Federal estão apurando que, de um total de 338,6 mil contratos de crédito consignado entre 2021 e 2025, um número expressivo não possui as devidas comprovações. Esses créditos, que somam aproximadamente R$ 6,7 bilhões, foram utilizados para compor carteiras de crédito que depois serviram como base para transações financeiras. Além disso, outros R$ 5,5 bilhões foram classificados como valores acessórios, sem explicações claras.
A situação é ainda mais complexa devido à presença de associações e fundos de investimento públicos nessas operações, que podem gerar riscos adicionais. Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, destaca que a utilização de estruturas intermediárias pode mascarar riscos reais, complicando a situação financeira do Banco Master.
Movimentações Políticas e CPI
Enquanto as investigações avançam, a criação de uma CPI para investigar o Banco Master enfrenta resistência no Congresso. Parlamentares da oposição estão buscando alternativas para apurar as conexões entre fraudes e possíveis delitos de lavagem de dinheiro, que parecem envolver um extenso esquema que vai além do caso Master. O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, está no centro dessas investigações, sendo apontado como o operador que facilitou a intermediação junto ao INSS.
O cenário é alarmante. As investigações do Banco Master revelam um emaranhado de operações financeiras que podem estar interligadas a fraudes mais amplas no sistema previdenciário. Se as autoridades aprofundarem as investigações, o que pode surgir poderá ter repercussões significativas, não apenas para os envolvidos, mas para todo o sistema financeiro.

