Explorando o Museu do Recôncavo
O Museu do Recôncavo, um espaço riquíssimo em cultura e história, apresenta aos visitantes uma verdadeira linha do tempo que destaca marcos significativos do famoso Engenho Freguesia, além de traçar a trajetória da própria instituição. O primeiro núcleo, intitulado Povos Originários, oferece um olhar sobre a história pré-colonial do Brasil, apresentando fotografias, um vídeo documentário e uma intervenção artística em grafismo do artista indígena Thiago Tupinambá. Essa abordagem busca ressaltar a contribuição e a presença dos povos nativos na formação da nação.
No Núcleo dos Povos Escravizados, é possível encontrar um acervo que inclui manuscritos do poema “Os Escravos”, de Castro Alves, que foram digitalizados a partir do original preservado no Parque Histórico Castro Alves, gerido pelo IPAC em Cabaceiras do Paraguaçu. Além disso, o espaço disponibiliza documentos históricos e totens que direcionam o visitante para a plataforma Slave Voyages, um valioso banco de dados sobre o tráfico transatlântico de escravizados, proporcionando uma reflexão profunda sobre esse período doloroso da história.
Revelando o Cotidiano
O Núcleo Doméstico retrata o cotidiano da época, exibindo mobiliário, retratos, pinturas e uma cozinha de época, caracterizada por grandes fornos e janelas ausentes, que ilustra o espaço onde muitas mulheres escravizadas desempenhavam suas funções. Esse núcleo foi pensado para oferecer uma visão íntima da vida cotidiana, muitas vezes negligenciada nas narrativas históricas.
Por outro lado, o Núcleo da Memória oferece uma experiência impactante na Sala do Silêncio, onde objetos de suplício e tortura nos lembram das adversidades enfrentadas pelos escravizados. Marcelo Lemos, diretor geral do IPAC, destaca que essa sala é um convite para revisitar o passado e ouvir as vozes que moldaram a história do Recôncavo e da Bahia.
Exposições Colaborativas e Temporárias
O museu ainda abriga a mostra colaborativa Fragmentos do Passado, que foi montada com a participação dos atuais trabalhadores da instituição. Essa exposição reúne restos de móveis, ferramentas e outros objetos encontrados durante as obras, organizados de forma a remeter a uma sala de ex-votos, criando uma conexão emocional com o público.
No térreo, a exposição temporária “Encruzilhadas” se destaca ao reunir obras de arte negra brasileira e africana, provenientes dos acervos do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e do Solar Ferrão. Com 40 artistas em exposição, a mostra apresenta nomes como Mestre Didi, Pierre Verger, Rubem Valentim e Alberto Pitta. Além disso, inclui máscaras da Coleção Cláudio Masella, que reúne peças de 18 etnias diferentes de 15 países.
A Importância da Reabertura
A escolha da temática para a reabertura do Museu do Recôncavo simboliza uma metáfora poderosa: as encruzilhadas como locais de novos começos e movimentos. Essa associação ressoa fortemente com Exu, orixá da comunicação, que representa a abertura de novos caminhos e possibilidades.
O acervo original do museu é impressionante, contando com 260 peças que vão de mobiliário e indumentária a desenhos, pinturas, cerâmicas e uma variedade de objetos que refletem não apenas a cultura local, mas também a herança da escravidão. Dentre estas, 141 peças foram restauradas por uma equipe de 15 profissionais, coordenada pelo professor Dirson Argolo, incluindo 30 imagens sacras.
Visitas Guiadas e Acessibilidade
Com o objetivo de tornar a experiência mais enriquecedora, o Museu do Recôncavo oferece visitas guiadas com monitores especializados, além de audioguia em Libras, banheiros acessíveis e áreas destinadas ao descanso. O percurso, que inclui a Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia, tem duração média de duas horas. O museu está aberto de quarta a domingo, das 10 às 17 horas, com entrada gratuita.
O trabalho realizado pelos técnicos do IPAC é digno de nota, especialmente no que se refere à linguagem utilizada na comunicação das informações, que respeita profundamente a memória dos escravizados. É essencial reconhecer que, durante dois séculos, esses indivíduos foram fundamentais na produção de açúcar, motor da economia baiana, mas sem receber os devidos benefícios. O cuidado do IPAC em contar essa história, preservando a dignidade dos protagonistas, é um aspecto que distingue o museu e o torna um destino vital para quem deseja compreender essa parte essencial da história da Bahia.

