A Individual ‘Matéria e Luz’ em Destaque
Marcos Duprat, um artista que passou quatro décadas e meia no serviço diplomático, agora dedica-se totalmente à sua paixão pela pintura. O artista, que ocupou cargos em cidades como Washington, Tel Aviv e Tóquio, extraiu a essência das luzes e cores de diferentes culturas, transportando essas vivências para suas telas através de pinceladas a óleo. Hoje, aos 81 anos e aposentado do Itamaraty, Duprat apresenta 32 obras na exposição individual “Matéria e Luz”, que está em cartaz até 3 de maio na Casa de Cultura Laura Alvim, localizada em Ipanema, Rio de Janeiro. Com curadoria de Luis Sandes, a mostra também seguirá para o Ateliê Casa Um, em São Paulo.
Na varanda envidraçada que se abre para a movimentada Avenida Vieira Souto e a Praia de Ipanema, as obras de Duprat refletem sua habilidade em trabalhar com as cores e a luz, capturando o movimento da água e suas ondulações. Entre as obras expostas, destacam-se “Horizontes” (2025) e o díptico “Águas” (2023), criadas com a técnica da velatura, que consiste na aplicação de camadas finas de tinta sobrepostas.
Duprat compartilha um pouco de seu processo criativo: “Às vezes, fico até dois meses em uma única tela. É preciso esperar a camada secar antes de aplicar a próxima. Não me interesso por produzir em um ritmo acelerado ditado pelo mercado. A pintura é, por essência, uma arte que desafia o tempo, especialmente em uma era tão imediatista como a atual.” Ele também menciona que o mercado de arte brasileiro mudou bastante, com os preços das obras alcançando patamares elevados, porém recorda com carinho da época em que havia um ambiente amistoso entre os artistas, onde todos se encontravam.
Influências e Encontros Artísticos
Um dos grandes marcos na trajetória de Duprat foi sua vivência no Atelier Livre do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), onde teve a oportunidade de aprender com renomados artistas nos anos 60, como Fayga Ostrower e Aluísio Carvão. Após ingressar no Instituto Rio Branco e iniciar sua carreira como diplomata em Brasília, ele continuou a se dedicar à arte, obtendo mestrado na American University em Washington, onde começou a servir em 1974. Na Casa de Cultura Laura Alvim, ele apresenta a tela “Figura em interior” (1977), uma de suas primeiras obras expostas na capital americana.
“Meus professores, como Ben Summerford e Robert d’Arista, eram influenciados pelo movimento abstrato-expressionista americano. Eu, por outro lado, pintava nu figurativo e sentia que estava fora daquele contexto. No entanto, eles sempre me encorajaram a persistir e a continuar explorando o que acreditava ser bom. O próprio De Kooning pintava com modelos vivos e desconstruía a figura para criar suas obras”, relembra Duprat. “As linhas de tensão do corpo humano são as que mais ensinam. O desafio de desenhar uma figura em pé e sua interação com o espaço é algo fundamental.”
A Homenagem a Antonio Cicero
Entre os amigos que Duprat fez ao longo do tempo está o poeta e compositor Antonio Cicero, que ocupou a cadeira número 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele apresenta um texto na mostra, originalmente escrito para uma exposição em 2018 no Palazzo Pamphilj, em Roma, e agora recuperado como um tributo ao amigo. A obra de Cicero, que faleceu aos 79 anos na Suíça, foi marcada pela sua luta contra o Alzheimer.
“Conheci o Cicero em Washington, onde ele fazia doutorado em filosofia. Sua irmã, Marina Lima, era uma jovem talentosa que se dedicava à música antes de retornar ao Brasil,” recorda Duprat. “Discuti com Marcelo Pires, o viúvo de Cicero, a ideia de incluir seu texto na exposição. Essa é uma oportunidade preciosa para o público brasileiro e uma forma de manter a memória dele viva. Ele esteve aqui em casa cinco dias antes de sua partida e estava lúcido. Entendi completamente sua decisão.”
Em suas palavras, Cicero reflete sobre o “mundo interior” do artista, evocando as representações, tanto figurativas quanto abstratas, de ambientes íntimos. “Ele soube captar muito bem essa essência. Para pintar, é necessário um espaço de introspecção e silêncio,” afirma Duprat. “Meu trabalho é simples e não busca tensionar questões sociais ou ideológicas. Embora não seja uma arte que chame a atenção à primeira vista, tem uma dimensão humana que fala de maneira singular a cada pessoa.”

