Um Olhar sobre o Passado e a Luta Feminina
O Museu de Arte da Bahia (MAB), localizado no Corredor da Vitória, abriga uma peça que merece atenção especial na exposição “Tradição e Invenção”. Trata-se de “Cabeça de Cristo”, uma obra de pequenas dimensões (31,5 x 23 cm), criada por Júlia Fetal, a primeira artista mulher com uma obra no acervo do MAB. Essa obra, que pode passar despercebida em meio a tantas outras, carrega uma forte mensagem sobre apagamentos históricos e o reconhecimento do papel feminino nas artes baianas.
Júlia Fetal, cujo talento foi interrompido tragicamente quando foi assassinada aos 20 anos, em 1847, em Salvador, teve sua vida marcada por um crime que chocou a sociedade da época. O feminicídio que a vitimou, conhecido como o crime da “Bala de Ouro”, ainda ressoa na memória coletiva brasileira.
A Força da Obra e seu Contexto Histórico
Integrando o acervo do MAB desde 1936, quando foi doada pelo oftalmologista e filantropo baiano Colombo Spínola, “Cabeça de Cristo” revela um traço delicado e uma técnica precisa que dialogam com a tradição acadêmica do século XIX. A expressividade do rosto de Cristo, capturada por Fetal, mostra não apenas domínio artístico, mas também a sensibilidade de uma jovem artista que teve seu potencial interrompido pela violência.
A trágica história de Júlia Fetal é emblemática. Após o rompimento com seu noivo, João Estanislau da Silva Lisboa, ele a matou em um ato de violência de gênero que se tornaria um exemplo de feminicídio no Brasil. A narrativa popular, que fala em uma bala feita da aliança do criminoso, mesmo que posteriormente desmentida, perpetuou o nome de Júlia em obras literárias e na cultura popular, como a novela “Espelho da Vida”, exibida pela Rede Globo.
Reflexões sobre o Presente e o Passado
O desenho “Cabeça de Cristo” não é apenas uma representação religiosa; ele se transforma em um documento histórico que evoca a luta feminina na arte, um campo frequentemente dominado por homens e onde as produções femininas eram relegadas ao espaço doméstico. A historiadora Camila Guerreiro é enfática: “O desenho ultrapassa a dimensão religiosa do tema para operar como documento histórico e marcador da presença feminina na arte do século XIX”. Assim, a obra de Fetal torna-se um testamento da força e da resiliência das mulheres na arte.
Além disso, a exposição “Tradição e Invenção” busca sua relevância atual ao reunir mais de 150 obras do acervo do MAB, propiciando um diálogo entre a arte histórica e contemporânea, além de enfatizar a importância da representatividade étnica e do protagonismo feminino. Essa nova curadoria provoca reflexões sobre a invisibilidade das mulheres na história da arte e sobre as assimetrias de gênero que persistem.
O Museu de Arte da Bahia e seu Papel Cultural
Fundado em 1918, o MAB é o mais antigo museu do estado e abriga um acervo de mais de 20 mil peças, incluindo pinturas, esculturas e artes decorativas. Com o objetivo de se afirmar como uma instituição dinâmica e plural, o museu aposta em exposições que conectam o passado ao presente. Atualmente, está em cartaz, além da exposição sobre Júlia Fetal, outras mostras que revisitam a arte baiana do barroco ao século XX, ampliando as discussões sobre permanências e transformações estéticas.
A história de Júlia Fetal, lembrada através de sua obra, nos convida a refletir sobre a luta contínua contra a violência de gênero e a importância de valorizar a produção artística feminina. Em um contexto onde, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram registrados 1.470 feminicídios no Brasil em 2025, é imperativo lembrar e honrar a memória das mulheres que, como Júlia, tiveram suas vozes silenciadas.

