Um Projeto que Reaviva Memórias
A narrativa de mulheres que dançaram, trabalharam e resistiram nos cassinos de Pernambuco entre as décadas de 1930 e 1950 ganha destaque com o lançamento do projeto “Bailarinas em Suspeição: Mulher, Dança e Trabalho nos Cassinos Pernambucanos (1930–1950)”. Idealizado pela artista da dança, pesquisadora e videomaker Marcela Rabelo, a iniciativa será lançada na quarta-feira, 29 de abril, coincidentemente o Dia Internacional da Dança. Este momento simbólico reforça a relevância da arte do corpo e das histórias que a cercam.
A estreia do projeto inclui duas frentes principais: a publicação de um artigo científico e a apresentação de uma videodança, que será divulgada no canal do YouTube do projeto, @bailarinasemsuspeição. A videodança resulta de um processo criativo e investigativo em dança, complementado pela criação de um blog/site que funcionará como um acervo digital, reunindo o artigo, a videodança e outros conteúdos coletados durante a pesquisa.
A Revisitação de um Período Artístico
Realizada entre setembro de 2025 e abril de 2026, a proposta do projeto é revisitar um tempo em que os cassinos eram epicentros da produção artística no Recife e em Pernambuco. Ao mesmo tempo, a pesquisa busca lançar um olhar crítico sobre as condições de trabalho e as narrativas que cercavam as mulheres que atuavam como bailarinas nesses ambientes.
O projeto emerge de um extenso levantamento documental realizado por Rabelo e sua equipe, que inclui a professora e antropóloga Selma Albernaz. A pesquisa se baseia na análise de jornais, revistas e fichas do antigo DOPS, acessadas através do projeto “Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos” de 2016, desenvolvido pela jornalista Clarice Hoffmann. Juntas, essas frentes revelam a vida de aproximadamente 90 mulheres, entre brasileiras e estrangeiras, cujas trajetórias foram marcadas pela vigilância, estigmas e uma rica produção artística em dança.
“Quando tive acesso a esses documentos, não apenas a quantidade de mulheres identificadas como bailarinas me impressionou, mas também a forma como eram descritas. As fichas e matérias de jornais que as designavam como bailarinas estavam acompanhadas de discursos de julgamento e desvalorização. Isso me levou a questionar: o que realmente mudou na percepção da mulher artista da dança desde os anos 1930 até hoje?”, afirmou Marcela Rabelo.
Olhar Crítico sobre as Narrativas de Suspeição
A investigação do projeto destaca como o olhar de suspeição sobre essas mulheres era moldado por critérios como nacionalidade, tipo de dança, estado civil, raça e circulação entre diversas cidades e países. Nos documentos e matérias da época, as classificações variavam entre bailarina clássica, vedete, sambista e acrobata, muitas vezes acompanhadas de julgamentos morais que transcendiam os palcos.
A maioria das bailarinas registradas eram de Pernambuco e de outros estados do Brasil. Embora houvesse um glamour em torno das bailarinas estrangeiras nas propagandas dos cassinos, o estigma moral recaía sobre todas. Um exemplo é a história de Maria José Rodrigues, uma bailarina pernambucana do Cassino Império, cujo fichamento no DOPS/PE a vinculava a um controle sanitário que historicamente estigmatizava mulheres em situação de prostituição, revelando como sua atuação artística era permeada por mecanismos de vigilância.
Histórias Entrelaçadas com a Arte e a Vigilância
Lilia Naldi, por sua vez, transitava entre danças clássicas e típicas brasileiras, mas mesmo seu reconhecimento artístico não a isentava da suspeição. Outras trajetórias, como a de Dolores, que se apresentava com o cubano Salvador Cárdenas, mostram como o repertório de frevo e rumba refletia um cenário complexo e repleto de contradições. A pesquisa também revela que o próprio corpo em cena era alvo de vigilância, como no caso de Marga Hernandez, que dançava em parceria com Cecy, gerando estranhamento em um contexto conservador.
Carmen Brown, artista negra de origem norueguesa, que atuou em danças afro-brasileiras, vivia uma dualidade de ser celebrada e, ao mesmo tempo, sujeita a discursos exotizantes. Seu registro oficial como branca evidencia distorções nos arquivos. Outras histórias, como a de Alda Bogoslowa, artista russa que acumulava histórias e viagens, e Geraldine Pike, conhecida como “mulher sem ossos”, revelam como a vigilância se estendia além do palco.
Um Diálogo com o Presente e a Importância da Memória
Essas narrativas não são meras exceções; elas apontam para um padrão de mulheres artistas constantemente observadas e julgadas, em um contexto em que suas trajetórias eram permeadas por controle social. O projeto não se limita a reconstruir o passado, mas também estabelece um diálogo com o presente. As questões sobre trabalho, corpo, moralidade e representação continuam a impactar a vida de muitas mulheres na dança contemporânea.
Produção da Videodança e o Papel das Artistas
A reflexão proposta pelo projeto se desdobra também na videodança criada por Marcela Rabelo, que busca tensionar, no corpo contemporâneo, as camadas de glamour, precarização e estigmatização associadas à figura da bailarina ao longo do tempo. Durante o processo de criação, Rabelo convidou mais três artistas da dança pernambucanas para colaborar com as técnicas de dança apresentadas nos documentos históricos: Amanda Andrade, Júlia França e Giselly Andrade.
A videodança, que será lançada no dia 29 de abril no canal do YouTube do projeto, estabelece uma conexão direta com o artigo científico, criando uma ponte entre a linguagem acadêmica e a criação artística. Em um movimento que entrelaça arte, pesquisa e memória, o projeto reafirma a importância de reconhecer o papel das mulheres na construção cultural e questionar as narrativas que ainda permeiam suas trajetórias de vida.
O projeto é realizado com apoio do edital de fomento à cultura PNAB 2024 do Governo Federal, através do Ministério da Cultura, e do Governo do Estado de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco (Secult-PE). Isso ressalta a relevância do investimento público em iniciativas que promovem a intersecção entre pesquisa, criação artística e preservação da memória cultural.

