Impulso da indústria automotiva na Bahia atrai trabalhadores chineses
A presença de trabalhadores chineses no mercado de trabalho brasileiro cresceu de forma significativa em 2025 e manteve o ritmo acelerado no primeiro quadrimestre de 2026, principalmente devido à expansão de projetos industriais ligados à cadeia automotiva na Bahia. Segundo dados do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e da Coordenação-Geral de Imigração Laboral (CGIL), foram concedidas 10.108 autorizações para profissionais chineses ao longo de 2025, consolidando a China como uma das principais origens de trabalhadores estrangeiros no país.
Distribuição geográfica e perfil dos profissionais
O perfil dessa imigração é bastante específico, concentrando-se em profissionais da indústria de transformação, montagem de equipamentos, manutenção industrial e implantação de grandes empreendimentos produtivos. Em 2025, São Paulo liderou a atração desses trabalhadores, com 4.441 autorizações (43,9% do total), seguido pela Bahia, que registrou 2.706 autorizações, representando 26,8% do total nacional.
Entretanto, no primeiro quadrimestre de 2026, a Bahia assumiu a liderança nacional, concentrando cerca de 1.600 autorizações para trabalhadores chineses, ou 57% do total registrado no período. São Paulo ficou em segundo lugar, com aproximadamente 550 autorizações (20%), e o Rio de Janeiro em terceiro, com cerca de 350 (12%).
Funções técnicas predominam na Bahia
O perfil dos trabalhadores varia conforme o estado. Na Bahia, a maior parte está ligada a funções técnicas, como operadores de montagem, técnicos industriais e profissionais diretamente envolvidos na produção. Já São Paulo apresenta maior diversidade, incluindo profissionais de tecnologia da informação, comércio atacadista de eletrônicos, telecomunicações e cargos gerenciais. No Rio de Janeiro, destaca-se a atuação em assistência técnica, engenharia, petróleo e energia.
De acordo com Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Camaçari, a maioria dos trabalhadores chineses na Bahia atua em funções técnicas, de supervisão e engenharia relacionadas à implantação da nova operação automotiva no estado. Ele ressalta que, ao contrário do que circula nas redes sociais, os chineses não predominam nas linhas de produção. “Na linha de manufatura, 95% dos trabalhadores são brasileiros, com poucos chineses atuando em treinamentos”, explica.
Transferência de tecnologia e desafios para a qualificação local
Bonfim destaca que esses profissionais estrangeiros estão concentrados em áreas estratégicas, como supervisão, coordenação e engenharia, especialmente na implantação da fábrica de veículos elétricos, uma tecnologia ainda pouco dominada no Brasil. “O carro elétrico é uma tecnologia nova, e é necessária a presença desses especialistas para a transferência de conhecimento”, afirma.
O professor Ariston Costa, doutor em Direito e especialista em questões trabalhistas, reforça que essa imigração não é espontânea, mas vinculada a projetos produtivos chineses no Brasil. Para ele, o desafio principal é fortalecer a qualificação técnica nacional para que os trabalhadores brasileiros possam ocupar gradualmente essas posições técnicas e estratégicas.
Transição para lideranças brasileiras
O dirigente sindical Júlio Bonfim observa que a presença de estrangeiros em cargos de liderança tende a diminuir com o tempo, à medida que profissionais locais são capacitados. Ele cita como exemplo a instalação da Ford no Polo de Camaçari, quando estrangeiros ocuparam inicialmente cargos técnicos e gerenciais, sendo substituídos por trabalhadores da região em um período de cinco a seis anos.
Segundo Bonfim, esse processo já está em andamento na nova operação automotiva. Mais de 200 líderes brasileiros, muitos deles baianos, foram contratados para funções de liderança, qualidade, logística e engenharia, fortalecendo a mão de obra local.
Impacto econômico e setor automotivo em destaque
A instalação da nova montadora em Camaçari tem impulsionado o reaquecimento econômico da região, gerando contratações, movimentando o comércio local e aumentando a demanda por moradia e serviços. Em 2025, a indústria automotiva respondeu por 2.953 autorizações para trabalhadores chineses, cerca de 29% do total, concentrando-se na fabricação de automóveis, camionetas e utilitários.
Além do setor automotivo, outras áreas relevantes incluem serviços de engenharia, fabricação de máquinas e equipamentos para construção, apoio à extração de petróleo e gás natural, e comércio atacadista de componentes eletrônicos e equipamentos de telecomunicações.
Perfil dos ocupantes e alta taxa de aprovação
O perfil ocupacional reforça o caráter industrial dessa imigração. Em 2025, as principais funções foram técnico de manutenção de sistemas e instrumentos, técnico em manutenção de máquinas, técnico mecânico, operador de time de montagem, técnico eletricista, eletrotécnico e encarregado de manutenção de instrumentos de controle e medição.
Em 2026, os operadores de time de montagem lideram entre os trabalhadores chineses, seguidos por encarregados de manutenção, técnicos mecânicos e especialistas em estruturas metálicas. Também se destacam gerentes administrativos, financeiros e comerciais, além de tradutores que facilitam a integração das equipes brasileiras e chinesas.
Com um índice de aprovação de solicitações de 96% em 2025 e concentração em ocupações técnicas, a presença desses profissionais está diretamente ligada a projetos empresariais estruturados e demanda por mão de obra especializada, evidenciando o papel estratégico da imigração chinesa para o desenvolvimento industrial da Bahia.

