O avanço do tráfico em Porto Seguro
Porto Seguro, conhecido como um dos principais destinos turísticos do litoral baiano, enfrenta um cenário preocupante com o fortalecimento do tráfico interestadual de drogas e armas. A localização estratégica da cidade, que faz fronteira com outros municípios do sul da Bahia, torna a região propícia para o escoamento de substâncias ilícitas e para a atuação de facções criminosas do Sudeste do país. Porto Seguro e cidades vizinhas configuram hoje um epicentro dessa movimentação criminosa.
Facções e conexões regionais
Um dos principais nomes que conecta o crime entre municípios sul-baianos é Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dada, líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE). Com atuação desde pelo menos 2011, o PCE expandiu o comércio de crack, maconha e cocaína para além de Eunápolis, alcançando distritos turísticos como Caraíva e Trancoso, em Porto Seguro. A presença da facção também é registrada em cidades como Itabuna, Catu e Santa Cruz Cabrália. Além disso, o PCE mantém alianças com o Comando Vermelho (CV), ampliando sua influência.
A parceria com o CV garantiu a Dada um refúgio no Rio de Janeiro após sua fuga da penitenciária de Eunápolis em dezembro de 2024, quando escapou junto com 15 detentos. A fuga levantou suspeitas sobre possíveis ligações políticas da facção, levando à delação premiada da ex-diretora da unidade, Joneuma Silva Neres, que afirmou ter agido a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), preso preventivamente desde então. A defesa do ex-parlamentar nega as acusações.
Operações policiais e tensão social
Em abril deste ano, Dada foi alvo de uma operação da Polícia Civil do Rio no Vidigal, que resultou em troca de tiros e deixou cerca de 200 turistas isolados no Morro Dois Irmãos. O líder criminoso, que havia alugado uma casa para celebrar o aniversário de sua filha, conseguiu fugir para a Rocinha. Atualmente foragido, ele continua comandando o PCE a partir das favelas cariocas.
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Na Bahia, a facção está associada a diversos desaparecimentos e homicídios no sul do estado, frequentemente em disputas com grupos rivais como o Bonde do Maluco (BDM) e o Mercado do Povo Atitude (MPA). Em 2023, a execução de um casal em Caraíva deixou um bilhete com a frase “PCE é bala”, indicando a presença da organização no distrito turístico.
Violência e armamento pesado
Outra organização ligada ao CV, os Anjos da Morte, liderada por Uillian da Silva Guimarães, conhecido como Gordura, também atua na região e em Minas Gerais. O grupo utiliza armamento pesado e explosivos para praticar intimidações coletivas. Em julho de 2025, a Operação Vértice Zero realizou a apreensão de fuzis, rifles, pistolas e munições em Caraíva, resultando na prisão de nove suspeitos. Entre eles, Ludmilla Silva Souza, a Ludy, que monitorava a população local, turistas e a polícia. A facção ainda é investigada por invasão de terras indígenas.
Essa operação evidenciou a alta letalidade da polícia baiana, responsável por um número significativo de mortes na região. A ação terminou com sete presos e cinco mortos, colocando Porto Seguro no topo do ranking de cidades com maior taxa de mortes por intervenção policial (MDIP). Em maio, policiais mataram o guia turístico Victor Cerqueira Santos Santana, de 28 anos, confundido com segurança de um traficante local, fato que gerou denúncia do Ministério Público da Bahia contra seis policiais. Até o momento, 59 das 130 mortes registradas em Porto Seguro em 2025 foram causadas por agentes policiais.
Disputa entre facções e impacto local
As rivalidades nacionais entre facções também se refletem na Bahia. A prisão de Gordura, a morte de Alongado e a operação Vértice Zero favoreceram a expansão do Mercado do Povo Atitude (MPA), ligado ao PCC, contra os Anjos da Morte. Uma investigação recente revelou que o líder do MPA, André Márcio de Jesus, conhecido como Buiu, ordenou a ampliação da facção em comunidades rurais de Porto Seguro, gerando um ambiente de violência exacerbada. Em agosto, a Operação Mandrake prendeu quatro suspeitos e bloqueou até R$ 14 milhões de envolvidos; dois foram mortos em confronto com a polícia.
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Conflitos fundiários e violência rural
Além do tráfico, a disputa por terras no sul da Bahia agrava a violência local. Fazendeiros, grileiros e indígenas disputam territórios rurais, com frequentes episódios de violência e processos judiciais. No ano passado, dois indígenas foram assassinados em Barra Velha, em uma emboscada. Outros casos foram registrados em Prado e Itamaraju. Facções como os Anjos da Morte também atuam nessas áreas, com relatos de invasões e ameaças, motivadas pela logística do tráfico.
Crimes recentes e desdobramentos
O tráfico continua provocando mortes em Porto Seguro. Recentemente, o motorista de aplicativo Edinaldo Saraiva da Silva foi executado na zona rural após testemunhar um assassinato ligado a facções locais. Outro caso é o duplo homicídio de Ulissias Cardial e Vinícius Souza de Carvalho, encontrado em uma estrada de terra em julho. A suspeita é que o crime tenha sido motivado pelo rompimento de um acordo para venda exclusiva de drogas sintéticas.
O cenário em Porto Seguro e região segue tenso, com a presença consolidada de facções criminosas, conflitos armados e uma resposta policial marcada por alta letalidade. A situação exige atenção contínua das autoridades e da sociedade para conter a escalada da violência e proteger as comunidades locais.

