O reencontro com a baianidade no SESC Pelourinho
Em meio ao burburinho do Pelourinho, o Restaurante SESC Pelô se destaca por oferecer um dos carurus mais celebrados da cidade de Salvador. Para Dom Franquito, devoto de São Jorge e admirador da tradição dos santos Cosme e Damião, degustar essa iguaria é mais que uma experiência gastronômica: é um mergulho na cultura popular baiana.
Ao lado de madame Bião de Jesus, em uma tarde dominical marcada pelos ensaios do Olodum e do Filhos de Gandhy, o sabor do caruru surpreendeu. O atendimento do garçom Nelson, que recebeu de presente um livro sobre a Avenida Sete, completou a atmosfera acolhedora do local. O SESC, além de restaurante, é uma escola de gastronomia que valoriza a culinária regional com pratos que traduzem histórias e tradições.
A tradição de São Cosme e São Damião e sua relação com a cultura baiana
O Dia de São Cosme e São Damião é celebrado em 26 de setembro pela Igreja Católica e, no dia seguinte, pelas religiões de matriz afro-brasileira, como Umbanda e Candomblé – estas últimas com forte presença em Salvador. A festa mescla o sincretismo religioso, homenageando os irmãos gêmeos que eram médicos e atendiam gratuitamente, com a distribuição de doces e caruru, símbolos de partilha e alegria.
Na capital baiana, crianças percorrem as ruas pedindo bombons, conhecidos localmente como balas, mantendo viva essa tradição que nasce do sincretismo cultural e da celebração comunitária.
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Fonte: edemossoro.com.br
O caruru: sabor, história e ingredientes que marcam a culinária baiana
O caruru servido no SESC é preparado com quiabo picado finamente, cozido em temperos marcantes e finalizado com azeite de dendê, que confere cor e sabor inconfundíveis. Camarão seco triturado e inteiro decora o prato, enquanto castanha de caju e amendoim torrados e moídos engrossam o caldo, trazendo textura e crocância.
Dom Franquito montou seu prato combinando caruru, vatapá, arroz solto, feijão, farofa de dendê e galinha cozida – esta última macia a ponto de se desfazer na boca. Embora a banana frita não estivesse disponível no momento da visita, a experiência gastronômica não perdeu sua força.
Entre etimologias e influências culturais
O termo “caruru” revela a rica mistura cultural do Brasil. Para alguns linguistas, como o historiador Luís da Câmara Cascudo, a palavra tem origem indígena, do tupi caa-rurú, que significa “erva que infla” ou “planta comestível”. Antes de ser o prato que conhecemos, caruru designava folhas nativas usadas em cozidos.
Outra corrente aponta para a origem africana, associando o termo ao quimbundo kalalu, que descreve um cozido de vegetais. Essa raiz também está presente no callaloo caribenho, prato que lembra o caruru brasileiro. A adaptação feita pelos africanos escravizados no Brasil, inserindo quiabo e azeite de dendê, fortaleceu essa identidade culinária.
O caruru de Cosminho: sabor, tradição e conversa fiada
O caruru do SESC é celebrado por sua combinação essencial: quiabo, camarão seco, castanha de caju, vatapá denso, galinha macia e farofa de dendê com textura marcante. Complementos e uma pimenta bem equilibrada completam o prato sem sobrepor os sabores principais.
A tradição do caruru também é permeada por histórias e debates entre grupos que afirmam cortar milhares de quiabos, enquanto outros contestam os números. No entanto, o que realmente importa é o sabor – e o do SESC é considerado maravilhoso por quem conhece a cultura gastronômica local.
Do restaurante à cultura popular
No SESC, a experiência vai além da comida. Uma estante repleta de docinhos, quindins e cocadinhas remete à memória de estudiosos e apreciadores da cultura baiana, como Vivaldo Costa Lima e Waldeloir Rego. A ambientação do local, ventilado e acolhedor, complementa o clima de tradição e convivência.
O Restaurante SESC Pelourinho funciona das 11h às 15h30, servindo apenas almoço. Com um buffet que custa R$109,00, as bebidas são cobradas à parte, enquanto os docinhos estão disponíveis no salão. Esta iniciativa reforça o papel do SESC como um espaço de valorização e difusão da cultura e gastronomia baiana, aberta para quem deseja mergulhar nos sabores do centro histórico de Salvador.

