Riscos Aumentados no Verão
Com a chegada do verão, os dias se tornam mais longos e as temperaturas mais elevadas, trazendo também uma maior exposição à radiação solar. Desde o dia 21 de dezembro, quando se iniciou oficialmente a estação, a expectativa é que os termômetros registrem níveis ainda mais altos do que no ano anterior, que já foi marcado por recordes de calor em todo o Brasil.
As condições naturais do verão, a elas somadas os efeitos das mudanças climáticas, suscitam uma preocupação crescente entre médicos e autoridades de saúde, especialmente em relação ao câncer de pele, que é o tipo de câncer mais comum no Brasil e no mundo. Conforme estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA), cerca de 220 mil novos casos de câncer devem ser registrados até o fim deste ano no país, sendo que na Bahia são esperados aproximadamente 10,8 mil diagnósticos. Esse cenário representa um grande desafio em termos de diagnóstico e tratamento ágil.
A Importância da Prevenção
O cirurgião oncológico Miguel Brandão, que atua na Bahia, enfatiza que a prevenção é a única forma efetiva de barrar o aumento desses números alarmantes. Ele recomenda não apenas o uso rigoroso de protetores solares, que deve incluir chapéus, óculos de sol e roupas apropriadas, mas também consultas regulares com dermatologistas. Além disso, é essencial ficar atento ao Índice de Radiação Ultra Violeta (UV) antes de se expor ao sol.
Este índice, que varia de 2 a 10 e pode ser classificado como baixo, moderado, alto ou muito alto, muda ao longo do dia e de região para região. Para verificar o índice, recomenda-se consultar websites de meteorologia, como Climatempo ou Meteored, ou por meio de aplicativos de celular.
Se o índice estiver alto ou muito alto, a exposição direta ao sol deve ser evitada. “É importante lembrar que o índice UV pode ser elevado mesmo em dias nublados”, alerta Brandão, que considera esse dado uma ferramenta essencial para passar o verão com segurança.
Uso Adequado do Filtro Solar
O cirurgião destaca a necessidade de aplicar o filtro solar corretamente, com reaplicações a cada duas horas ou após atividades aquáticas, para garantir a eficácia do produto. “É fundamental desmistificar as informações equivocadas que circulam nas redes sociais, como aquela que afirma que o filtro solar não oferece proteção”, ressalta Brandão, que também faz parte do Grupo de Oncologia Cutânea da clínica AMO e atua no Hospital Santo Antônio.
Um aspecto notável é a mudança no perfil demográfico dos pacientes diagnosticados com câncer de pele. De acordo com o especialista, a falta de uma rotina de cuidados, a exposição contínua ao sol e o aumento da intensidade da radiação solar, relacionada ao efeito estufa, estão contribuindo para um aumento no número de jovens afetados pela doença. “Historicamente, o câncer de pele era mais comum em pessoas acima de 60 anos, mas hoje vemos muitos casos entre indivíduos mais jovens”, observa.
Desmistificando Crenças
O câncer de pele pode ser classificado em melanoma e não melanoma, sendo este último o mais comum e menos agressivo. Entretanto, o diagnóstico precoce é fundamental, o que envolve a vigilância de sinais, manchas ou lesões na pele. Brandão também destaca um mito importante que deve ser combatido: a ideia de que pessoas negras estão imunes ao câncer de pele. Mesmo com a proteção natural oferecida pela melanina, trabalhadores que se expõem ao sol, como aqueles de áreas rurais ou da construção civil, não estão livres do risco. “Essa é uma realidade observada no Ambulatório de Oncologia do Hospital Santo Antônio”, diz Brandão, referindo-se ao atendimento que se integra às Obras Sociais Irmã Dulce.
Além disso, pessoas negras tendem a ser mais suscetíveis a um subtipo agressivo chamado melanoma acral, que afeta regiões como a palma das mãos e a sola dos pés.
Os Desafios do Tratamento
O acesso a tratamentos de qualidade é outro desafio enfrentado pelos pacientes, especialmente aqueles atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na última década, as inovações como a imunoterapia trouxeram mudanças significativas para os pacientes que não respondem mais a quimioterapia e radioterapia. Segundo Brandão, “a imunoterapia fortalece o corpo e, mesmo em casos avançados, temos uma taxa de cura de cerca de 50%”. O obstáculo, no entanto, é o alto custo do tratamento, que frequentemente leva pacientes a recorrer à judicialização.
Um exemplo é o caso de Maria José Silveira, uma dona de casa de 65 anos, que enfrenta um tratamento que pode custar entre R$ 30 mil e R$ 35 mil por aplicação. Ela já tentou buscar ajuda judicial, mas teve seu pedido negado e agora planeja recorrer à esfera federal. “Estou confiante de que tudo dará certo”, diz Maria, que reside na zona rural de Sátiro Dias.
Expectativas para o Futuro
O verão de 2025/2026 promete ser ainda mais quente e seco, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). A previsão é de que a Bahia, entre outras regiões do Nordeste, registre temperaturas acima da média histórica, com a última semana do ano apresentando máximas em torno de 30 graus. As projeções também indicam volumes de chuva abaixo da média para grande parte do Nordeste, tornando ainda mais essencial o cuidado com a pele durante os próximos meses.

