A Importância da Autossuficiência no Agro
Em colunas anteriores, temos defendido a autossuficiência na produção de trigo, um tema crucial para a segurança alimentar do Brasil. Essa questão tornou-se ainda mais relevante com a instabilidade das fontes tradicionais de suprimento, especialmente após a eclosão do conflito entre Rússia e Ucrânia, que mexeu com o mercado global de alimentos.
Entretanto, não se trata de advogar que o Brasil deva produzir tudo o que consome, visto que há produtos cuja produção é inviável devido a limitações climáticas. Nesta coluna, vamos explorar a ideia de que não só produtos agrícolas, mas também alguns insumos estratégicos, devem estar em foco quando falamos de autossuficiência. Isso é particularmente urgente considerando o atual cenário geopolítico mundial. Um dos insumos críticos que devemos considerar são os fertilizantes, cuja importação representa uma parte significativa do nosso consumo anual.
Contexto dos Fertilizantes no Brasil
Antes de adentrar na situação do setor de fertilizantes, vale mencionar que a proposta de avançar na autossuficiência não é uma ideia isolada. Outros estudiosos de renome já levantaram essa bandeira. Um exemplo é o trabalho intitulado “Diagnóstico e reposicionamento político e estratégico da agricultura tropical”, elaborado por Marcos Jank e uma equipe de seis pesquisadores do INSPER. Eles destacam que o sucesso da agricultura brasileira tem raízes em investimentos contínuos em pesquisa, inovação e políticas públicas que favoreçam a produção adaptada às condições tropicais.
O modelo agrícola brasileiro se destaca pela busca de economias de escala e pela especialização das unidades de produção. Além disso, a modernização do setor e o aumento da produtividade são acompanhados por práticas que buscam conservar a fertilidade dos solos tropicais, que são particularmente frágeis.
A Necessidade de Redução das Importações
No fechamento do estudo, Jank e sua equipe enfatizam que a instabilidade geopolítica e o aumento do protecionismo comercial diminuem a confiabilidade das zonas produtoras de alimentos e insumos. Essa conjuntura torna ainda mais urgente a necessidade de que países em desenvolvimento, como o Brasil, busquem suprir sua própria demanda por alimentos e insumos agrícolas, incluindo produtos têxteis e energéticos. A interpretação dessa análise reforça a urgência de reduzirmos as importações de insumos fundamentais para o agro, especificamente os fertilizantes, cuja dependência é alarmante.
Atualmente, cerca de 90% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados. A redução dessa cifra é uma tarefa complexa e que demanda tempo. Para o trigo, por exemplo, podemos vislumbrar a autossuficiência em um período de cinco a dez anos. Porém, especialistas projetam que, ao longo das próximas três décadas, poderíamos reduzir a dependência de fertilizantes para cerca de 50%, o que ainda representa um grande desafio.
Desafios da Produção de Fertilizantes
A maior parte da nossa dependência recai sobre os fertilizantes potássicos. Atualmente, apenas uma mina opera no Brasil, a de Taquari-Vassouras, localizada em Sergipe, que suprindo menos de 10% da demanda nacional. Existe também uma mina em potencial em Autazes, no Amazonas, que poderia atender pelo menos 20% da demanda. No entanto, a instalação dessa mina enfrenta uma série de obstáculos, desde questões ambientais até as preocupações levantadas pelo Ministério Público Federal sobre possíveis impactos em territórios indígenas.
Portanto, o início da operação desse projeto ainda é incerto, o que traz uma camada adicional de complexidade para a busca da autossuficiência nos insumos necessários para o agro brasileiro. As expectativas são elevadas, e o caminho está repleto de desafios que precisam ser superados para garantir um futuro mais seguro e sustentável para a agricultura em nosso país.

