Análise das Implicações da Ação Americana
A recente captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por militares dos Estados Unidos em Caracas promete gerar importantes repercussões nas eleições brasileiras. Essa ação poderá intensificar os discursos polarizados entre o bolsonarismo e o petismo, reativando narrativas que ambos os lados consideram essenciais. A direita busca reforçar um discurso anticomunista, associando o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT a práticas de ditadura, enquanto a esquerda, por sua vez, tenta consolidar a bandeira da soberania nacional, uma narrativa que se fortaleceu durante os efeitos do tarifaço imposto pelo governo americano sobre produtos brasileiros.
O cientista político Paulo Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (Fespsp), destaca que a questão da Venezuela ressoa fortemente com a base bolsonarista, sendo utilizada como uma estratégia para atacar a perspectiva de esquerda. Contudo, esse cenário também cria uma situação complexa à direita, uma vez que pode reforçar a defesa da soberania nacional, proporcionando um impulso ao discurso de Lula, especialmente considerando o episódio do tarifaço.
Repercussões no Cenário Político
Contrário ao que se observou após o anúncio da sobretaxa sobre exportações brasileiras, a postura controversa de Maduro, acusado de violar direitos humanos e perseguir opositores, não trouxe consequências econômicas imediatas. Isso permite que candidatos da oposição se alinhem à posição de Donald Trump, tentando conquistar visibilidade até mesmo entre setores moderados. Segundo Ramirez, Maduro não consegue ser unanimidade nem mesmo entre os críticos do governo atual.
Desde a invasão americana, parlamentares e governadores da oposição passaram a associar Lula a Maduro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado por Jair Bolsonaro para a corrida presidencial, chegou a afirmar que Lula e Maduro são equivalentes, ressaltando que o Brasil não deve seguir o mesmo caminho da Venezuela. Por outro lado, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), celebrou a ação americana nas redes sociais, reafirmando sua aliança com Trump, especialmente após enfrentar desgaste durante o tarifaço. Ele provavelmente não enfrentará danos em sua imagem, principalmente entre seus principais eleitores, que incluem o agronegócio e o empresariado paulista.
Ofensivas da Oposição e Respostas do PT
Além disso, representantes do agronegócio tentaram vincular o PT e Lula ao narcotráfico na América Latina, ecoando as acusações lançadas pelo governo Trump contra Maduro. Em resposta, o PT reagiu com ações judiciais contra políticos da direita que veicularam essas associações. O cientista político Rui Tavares Maluf adverte que o apoio antecipado de Trump pode ser um erro estratégico para os opositores de Lula. O ex-presidente americano já fez declarações polêmicas, como a ideia de anexar a Groenlândia, levantando preocupações sobre a possível militarização da situação.
Com as eleições brasileiras se aproximando, Maluf interpreta as ações de Tarcísio e outros governadores de direita como uma tentativa de maximizar sua conexão com Bolsonaro e seu eleitorado. Isso ocorre, mesmo diante da desconfiança em relação à candidatura de Flávio, que ainda provoca divisões no meio político. Governadores menos conhecidos, como Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, estão aproveitando a situação atual para tentar superar essa barreira.
Os Desafios para a Esquerda e o PT
No que diz respeito à esquerda e ao PT, Maluf observa que o foco no discurso da soberania, em detrimento da defesa direta do regime de Maduro, revela tanto as contradições internas da pauta quanto a necessidade de preservar os ganhos diplomáticos obtidos após a reversão do tarifaço e a boa relação que se mantém com os Estados Unidos atualmente. Apesar disso, é desafiador evitar um histórico de “benevolência” em relação aos abusos cometidos na Venezuela, uma postura que vem sendo revista, especialmente após o não reconhecimento do processo eleitoral previsto para 2024.

