Um Estudo Inovador em Saúde Pública
O pesquisador Mitermayer Galvão dos Reis, da Fiocruz Bahia, está à frente de um estudo que investiga a resistência antimicrobiana sob a perspectiva da saúde única. Este projeto, que faz parte das atividades do Laboratório de Patologia e Biologia Molecular (LPBM/Fiocruz Bahia), envolve a colaboração de cientistas de diversas partes do Brasil e de outros países. Seu foco principal é a análise microbiológica das coleções hídricas de Salvador, com ênfase especial em áreas como o Rio do Cobre, e a Bacia do Rio Camarajipe, a maior bacia hidrográfica da cidade, além do Rio Pituaçu, que flui até o Parque Metropolitano de Pituaçu e deságua no mar.
As atividades do projeto foram discutidas recentemente no Seminário sobre Resistência Antimicrobiana sob uma Visão da Saúde Única, realizado em 11 e 12 de dezembro de 2025. Este evento reuniu uma ampla gama de participantes, incluindo pesquisadores, alunos de pós-graduação, engenheiros sanitários, profissionais de vigilância em saúde e especialistas em biotecnologia, além de infectologistas e microbiologistas.
Os Desafios da Resistência Antimicrobiana
A resistência antimicrobiana é a capacidade dos microrganismos de resistir aos efeitos dos medicamentos destinados a combatê-los. Essa resistência pode ocorrer de maneira natural, mas ações humanas, como o uso inadequado de antibióticos e deficiências em higiene e saneamento, são fatores que a agravam. O uso excessivo de antimicrobianos e a destinação inadequada de resíduos são, portanto, questões críticas que precisam ser abordadas sob a ótica da saúde única, uma abordagem que enfatiza a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental.
Mitermayer Galvão relata que a ideia de desenvolver esse estudo surgiu em 2017, durante sua participação em um congresso da Sociedade de Medicina Tropical Americana nos Estados Unidos. “Lá, já se tinha uma visão clara de que a resistência antimicrobiana é um grave problema de saúde pública, um grande desafio para a humanidade”, destacou.
A Importância da Educação e Vigilância
No seminário, o professor Nilton Erbet Lincopan, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e referência em estudos sobre resistência antimicrobiana, abordou como hábitos populacionais contribuem para as mutações desses microrganismos. “É essencial educar a população. A Academia deve investir em extensão universitária para promover essa conscientização”, defendeu.
Adriano Monteiro, pós-doutorando da Fiocruz Bahia, alertou para a existência de uma pandemia silenciosa relacionada à resistência antimicrobiana, enfatizando a necessidade de vigilância em ambientes fora dos hospitais. “Nossos estudos indicam que os rios de Salvador são reservatórios significativos de bactérias resistentes, abrigando genes que antes eram encontrados apenas em contextos hospitalares. O seminário foi crucial para reunir profissionais de diferentes áreas, fortalecendo o debate sobre resistência antimicrobiana e suas implicações para a saúde pública”, afirmou.
Colaboração Interdisciplinar e Soluções Práticas
A Professora Joice Pedreira, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia, enfatizou que a resistência antimicrobiana representa um dos maiores desafios para a saúde global. “Foi a primeira vez que reunimos profissionais e pesquisadores de áreas distintas para compartilhar informações e experiências sobre o uso de antibióticos e resistência microbiana. As discussões foram valiosas e apontaram direções importantes que servirão como base para propostas concretas”, ressaltou.
Renata Cristina Picão, professora do Departamento de Hidrobiologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), destacou a troca de conhecimentos como essencial para o progresso em Salvador. “Participar desse seminário foi enriquecedor pela interação intersetorial, que reforçou a importância da integração entre pesquisa, vigilância e políticas públicas”, comentou.
Lee Andrade, estudante de doutorado da Fiocruz Bahia e membro do projeto, também expressou a relevância do seminário. “Foi uma oportunidade valiosa para aprender sobre as pesquisas em andamento e receber sugestões para meu trabalho. A construção de uma rede de colaboração entre pesquisadores e instituições é fundamental para expandir as possibilidades de pesquisa e publicações”, concluiu.

