Mortes de Animais Silvestres no Oeste Baiano
No oeste baiano, o futuro de diversas espécies silvestres, algumas raras e em vias de extinção, continua ameaçado. Documentos e relatos recentes confirmam que animais estão se afogando em canais e reservatórios de água utilizados para irrigação no agronegócio local. Além da morte de pequenos animais, um tamanduá-bandeira e um lobo-guará, ambos monitorados pela ONG Associação Onçafari, também perderam suas vidas. O último foi encontrado em um ‘piscinão’, enquanto os outros três casos ocorreram em canais. A associação, no entanto, preferiu não comentar sobre o assunto diretamente.
A irrigação ligada ao agronegócio é a principal fonte econômica da região, onde são cultivados soja, milho, algodão, entre outras culturas, além de gado bovino. O Matopiba, um importante polo produtivo, destina a maior parte de sua produção à exportação de grãos e fibras, com algumas fazendas utilizando milhões de litros de água diariamente.
Desde 2023, a situação tem sido amplamente abordada por O Eco, que revelou como os canais e reservatórios cobertos por membranas estão se tornando armadilhas mortais para os animais que tentam cruzá-los ou saciar a sede. Aqueles que caem nesses sistemas se vêem em uma luta desesperadora pela sobrevivência, tentando escalar as paredes escorregadias até não aguentarem mais.
Grande parte das propriedades rurais da região possui canais a céu aberto, com extensões que podem atingir até 40 km. Em uma dessas inspeções, foram encontrados um verdadeiro cemitério, com muitos animais afogados e suas carcaças queimadas.
Falta de Ação do Governo e Consequências
Os afogamentos de animais silvestres não são um fenômeno recente; o governo baiano tem conhecimento disso há pelo menos seis anos. Embora multas que totalizam R$ 200 mil tenham sido aplicadas e uma série de medidas solicitadas para mitigar a situação, até o momento, a ação efetiva ainda não se concretizou. O Ministério Público e o Judiciário também têm cobrado providências e informações, mas a resposta continua insatisfatória.
Em uma inspeção realizada quase dois anos após a multa e as notificações, o governo estadual verificou que muitos canais e reservatórios ainda não possuíam cercas adequadas, e novas ossadas de animais, incluindo espécies ameaçadas, foram encontradas. “A mortalidade de animais silvestres continua devido à ausência de controle e à falta de implementação de medidas mitigadoras nas atividades do agronegócio”, ressalta Margareth Maia, diretora da ONG Instituto Mãos da Terra (Imaterra) e doutora em Ecologia pela UFBA.
Um dos principais problemas são as cercas, que além de não serem suficientemente efetivas, muitas vezes encontram-se danificadas. Elas não impedem a passagem de animais, podendo até restringir o deslocamento de espécies maiores que necessitam se alimentar e se reproduzir.
Licenciamento e Regulação Deficiente
Outro fator que contribui para a persistência desse problema é a maneira como as estruturas de irrigação são licenciadas ao longo dos anos. Documentos obtidos por O Eco indicam que muitos canais são classificados como “reservatórios lineares” para facilitar a regularização, embora sejam, na verdade, desvios de rios. De acordo com pareceres técnicos estaduais, essas estruturas deveriam passar por avaliação ambiental completa, mas a maioria das propriedades opera apenas com autorizações pontuais de supressão de vegetação e outorgas de uso da água.
Esse cenário é resultado de um decreto estadual de 2014 que aboliu a exigência de licenciamento para atividades agrossilvipastoris, o que deixou grandes propriedades sujeitas a avaliações mínimas, sem uma análise integrada dos impactos ambientais.
Margareth Maia, do Imaterra, critica esse modelo, afirmando que a falta de licenciamento adequado para os extensos canais de irrigação e piscinões na Bahia gera um vácuo de controle e fiscalização.
Soluções e Alternativas para Mitigação
Embora muitos empreendimentos sigam esse padrão perigoso, algumas fazendas na região estão adotando medidas mais seguras para irrigar suas plantações. Em uma área vistoriada, foi identificado um canal revestido com material menos escorregadio e com margens vegetadas, onde não ocorreram afogamentos de animais em mais de uma década. Esse modelo imita um rio ou córrego, permitindo que os animais bebam e saiam da água mais facilmente, sem risco de se afogar.
Outra alternativa implementada em algumas propriedades é a substituição dos canais abertos por adutoras, que são canos enterrados ou parcialmente expostos, eliminando o risco de afogamentos. Rodrigo Gerhardt, gerente da Campanha de Vida Silvestre da ONG Proteção Animal Mundial, afirma que a falta de alternativas técnicas não é o problema. “Existem soluções que podem evitar os afogamentos, mas os fazendeiros costumam alegar que o custo é elevado”, critica.
Para ele, as mortes de animais são vistas como um custo aceitável das atividades econômicas, e há uma normalização da crueldade, como se fosse um efeito colateral insignificante do agronegócio. “É uma morte lenta e angustiante, que poderia ser evitada”, destaca.
Atualmente, discute-se uma instrução normativa estadual que visa regulamentar a construção e operação de canais e reservatórios, buscando reduzir os impactos sobre a fauna. Porém, a proposta não avança devido à forte influência do setor de irrigação. “A presença e poder político do agronegócio no Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) são significativos e determinantes para a inação do órgão licenciador”, explica Margareth Maia.
Em resposta, o ICMBio informou que está em discussão com produtores e entidades civis propostas para prevenir acidentes em sistemas de irrigação. O órgão destaca que reuniões têm sido realizadas para apresentar alternativas que minimizem os riscos de quedas e acidentes nos canais. Até o fechamento desta reportagem, tanto o Inema quanto o Ibama não se manifestaram sobre o assunto, e a situação continua crítica.

