Um Novo Capítulo no Carnaval Salvadorenho
O verão em Salvador ganha um novo destaque cultural com a criação do Grupo Recreativo de Ocupação Lacrativa Alfabeta. Este bloco vem para ampliar horizontes e dar voz a histórias que foram silenciadas, afirmando com toda força que o samba é, sem dúvida, um território da diversidade LGBTQIAPN+.
Mais do que um simples desfile, o Alfabeta se apresenta como um movimento cultural e político, transformando o Carnaval em um espaço de pertencimento, representatividade e inclusão genuína. A proposta é clara: resgatar e dar visibilidade a compositores e compositoras que contribuíram para a construção do samba brasileiro, mas que foram, historicamente, apagados por questões como machismo, LGBTfobia e exclusão social.
Resgatando Nomes Importantes da História do Samba
Baseado em pesquisas acadêmicas e na força da cultura popular, o bloco homenageia figuras históricas do samba que se identificam com a comunidade LGBTQIAPN+. Nomes como Ismael Silva, um carioca nascido em 1905, e Assis Valente, um baiano de Santo Amaro, que viveu entre 1911 e 1958, são celebrados, sem deixar de lado a criação autoral, a irreverência, e os elementos característicos de “close bafônico” que também compõem essa narrativa. O resultado é um repertório que mistura memória, identidade e afirmação política, reafirmando o samba como uma linguagem vibrante e plural.
O Alfabeta fará seu desfile inaugural no dia 17 de janeiro, na Rua do Meio, no famoso bairro do Rio Vermelho, a partir das 15 horas. O evento está totalmente adaptado para receber pessoas com deficiência, consolidando-se como um dos projetos mais inovadores do verão soteropolitano. Desde sua concepção, o bloco se comprometeu radicalmente com a acessibilidade, visando promover a inclusão de forma estrutural e não apenas como uma adaptação tardia.
Acessibilidade em Foco
A proposta de acessibilidade se traduz em ações concretas. Durante o desfile, diversos recursos serão implementados, incluindo a colaboração de importantes figuras da comunidade, como o ator e modelo Maurício Rosário, que foi convidado para desenvolver o sinal oficial do Alfabeta em Libras. Esse gesto simbólico representa o reconhecimento da comunidade surda dentro do universo carnavalesco.
A lógica inclusiva também se reflete na comunicação digital do bloco. O perfil oficial do Alfabeta no Instagram (@blocoalfabeta) é estruturado para ser inteiramente acessível: todas as postagens são acompanhadas de texto alternativo e audiodescrição, com vídeos traduzidos em Libras e conteúdos exclusivos organizados para garantir autonomia a pessoas cegas e surdas.
Construção Coletiva e Convite à Participação
Além disso, o Alfabeta se constrói de maneira colaborativa. O bloco está com inscrições abertas para percussionistas LGBTQIAPN+, convidando músicos que toquem cuíca, repique, caixa ou tamborim para integrarem a bateria. A participação de pessoas com deficiência é especialmente bem-vinda. Os ensaios ocorrem na Quadra do Apaxes, localizada no Dique do Tororó, sempre às segundas e quartas-feiras, nos dias 5, 7, 12 e 14 de janeiro, das 19 às 22 horas.
Adriano Marques, um dos idealizadores do Alfabeta, vê o projeto como um marco simbólico e político. Segundo ele: “O Alfabeta é feito por e para a comunidade LGBTQIAPN+, mas é, acima de tudo, um bloco para todos. O fundamental é resgatar uma história que foi escrita, mas não contada: a presença e o protagonismo da comunidade no samba, que sempre esteve presente, criando, inovando e abrindo novos caminhos. Agora, contamos essa história a partir da nossa própria voz.”
Um Marco no Carnaval Contemporâneo
Com uma proposta estética, política e cultural integrada, o Bloco Alfabeta tem tudo para se consolidar como um marco do Carnaval contemporâneo, onde diversidade, arte, acessibilidade e pertencimento andam de mãos dadas. O samba reafirma, assim, sua vocação mais profunda de ser livre, coletivo e transformador.
O projeto “Alfabeta: Celebrando a Diversidade e Promovendo a Inclusão no Samba de Salvador” foi contemplado nos Editais Paulo Gustavo Bahia e conta com o apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura, por meio da Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura do Governo Federal.

