O Carnaval e sua Importância Cultural
O Carnaval possui uma magia única, e nesta reflexão, deixo espaço para Pio Figueroa compartilhar suas ideias sobre essa celebração. Pio, meu conterrâneo e amigo de longa data, é também um talentoso fotógrafo e meu DJ favorito. Ele traz à tona uma questão pertinente: o ponto facultativo do Carnaval, que retrata um país que valoriza intensamente sua cultura, mas hesita em transformá-la em um direito garantido.
Acabou o ano, e é hora de se jogar no clima do Carnaval. Essa festa é uma entidade mística, culturalmente essencial, que mesmo assim não é reconhecida oficialmente como feriado nacional. Embora as ruas se encham de foliões e a vida pareça parar, juridicamente essa pausa é apenas um ponto facultativo. Ou seja, se você não trabalhar, é visto como uma benevolência, mas se deve cumprir sua jornada, a lei não considera isso uma maldade.
É curioso notar como o Brasil nunca teve a coragem de oficializar esse feriado. Reconhecer o Carnaval como um dia de folga implicaria admitir que essa celebração é um direito cultural, uma parte essencial da vida em nosso país. Isso, por sua vez, exigiria a aceitação de que o descanso, a celebração e a ocupação do espaço público são também questões políticas.
Talvez por isso essa festa viva sob constante desconfiança. É uma alegria intensa para uma sociedade que, historicamente, acredita que o ideal é ser produtivo, trabalhar e consumir, celebrando apenas quando for autorizado. O Carnaval, no entanto, foge a essa lógica e invade as ruas, o que muitas vezes causa desconforto.
A Construção do Calendário e Suas Implicações
Geralmente, acreditamos que o calendário é neutro, como um simples objeto que marca o passar dos dias. No entanto, essa visão é limitada. O calendário é uma construção histórica, moldada por disputas e interesses de diversos grupos sociais. Ele não apenas organiza o tempo, mas também estabelece o que é importante e merece ser celebrado.
Com a Proclamação da República em 1889, o Brasil começou a ter um calendário mais estruturado, que buscava criar um sentimento de identidade nacional. O primeiro governo republicano se encarregou de definir as festividades nacionais, antes mesmo da nova Constituição de 1891. Esse calendário tinha como objetivo moldar uma nova identidade, sem a figura da monarquia, sem um imperador, e, oficialmente, sem a influência de uma religião específica.
Assim, foi inaugurada uma nova pedagogia do tempo, onde as celebrações e as omissões passaram a ensinar a sociedade sobre quem deveria ser. O calendário tornou-se um instrumento mais eficaz na afirmação de valores e na formação de memórias coletivas, decidindo quais datas deveriam ser lembradas e, por consequência, quais poderiam ser esquecidas.
Reconhecimento e a Luta por Direitos
Ao longo da nossa história, o calendário figura como uma ferramenta que tenta ditar a identidade nacional. A inclusão do Dia do Trabalho serve como um exemplo, destacando que a luta por direitos também merece um momento de pausa.
Recentemente, em dezembro de 2023, foi aprovada a Lei nº 14.759, instituindo o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Essa conquista é significativa, pois vai além da escolha de uma data; trata-se de enfrentar uma longa disputa sobre quem merece reconhecimento em nível nacional. O feriado da Consciência Negra simboliza a luta por direitos fundamentais e o reconhecimento da importância do povo negro na formação do Brasil.
Reconhecer essa data expõe as opressões que persistem e se renovam. É um esforço para afirmar o respeito às histórias que teimam em não se submeter ao esquecimento. Entretanto, como frequentemente ocorre, houve resistência por parte de alguns gestores, que utilizaram argumentos discriminatórios para barrar tal reconhecimento. Felizmente, esses argumentos foram derrotados.
O Papel do Carnaval na Identidade Coletiva
Feriados têm um propósito fundamental: marcar o tempo social, fortalecer identidades coletivas e reafirmar que a vida possui um significado que vai além da utilidade prática. O Carnaval vai além de todas essas funções; ele gera pertencimento, movimenta economias e reinventa maneiras de vivenciar o espaço público.
No entanto, essa festa ainda se encontra em um limbo: é grande demais para ser ignorada, mas livre demais para ser plenamente reconhecida. O ponto facultativo do Carnaval é, sem dúvidas, um reflexo de um país que celebra sua cultura, mas hesita em torná-la um direito garantido. O Brasil lucra com a festa, mas sua abordagem parece ser de reserva. Afinal, amanhã é dia útil.
Contudo, o povo decidiu discordar dessa visão. E assim, o Carnaval se torna um estado de espírito, onde proclamamos: não é feriado? Declaramos que é Carnaval o ano inteiro!

