Reflexões sobre Saúde e Autocuidado
A cultura da saúde, tanto no Brasil quanto no exterior, se revela um paradoxo. Enquanto a medicina avança em tecnologias e tratamentos inovadores, o dia a dia das pessoas ainda carece de práticas de prevenção e autocuidado. Essa análise foi apresentada pelo médico Cláudio Lottenberg em uma entrevista ao programa Cessar-Fogo, conduzido por Alex Solnik. Durante a conversa, que foi veiculada no canal da TV 247, Lottenberg, oftalmologista e membro do Hospital Israelita Albert Einstein, discutiu como a sociedade aprende a reagir às doenças, em vez de fomentar hábitos saudáveis no cotidiano.
Lottenberg enfatizou a necessidade de uma educação que comece desde a infância, para que as pessoas aprendam a cuidar de suas próprias saúdes. ‘Nós, de fato, não somos pessoas que somos direcionados a tomar conta da nossa própria saúde’, afirmou. Ele também comentou sobre a maneira como a saúde é discutida publicamente, que muitas vezes desloca responsabilidades e traz uma visão distorcida do papel do Estado. ‘A saúde é um dever do Estado, um direito do cidadão, quando na verdade deveria ser um dever de cada um’, argumentou, ressaltando que a falta de cuidado individual acaba onerando a sociedade como um todo e aumenta os custos dos sistemas de saúde.
A Tecnologia e o Mito da Solução Rápida
Durante a entrevista, Lottenberg fez críticas a um mito recorrente: a crença de que a tecnologia é a solução para todos os desafios da saúde. Apesar de reconhecer que as inovações tecnológicas transformaram a medicina — desde o uso de termômetros até a realização de exames complexos —, ele destacou que isso não resolve os problemas fundamentais, como a formação de hábitos saudáveis e a prevenção de doenças.
‘A tecnologia é utilizada em momentos críticos, mas não necessariamente aborda a cronicidade de doenças’, explicou. Lottenberg ressaltou que, mesmo em áreas como a nutrição e a atividade física, os médicos frequentemente carecem de formação para orientar adequadamente os pacientes. Essa falta de preparo contribui para uma cultura que prioriza procedimentos médicos em detrimento da saúde preventiva.
Transformando a Visão de Saúde
Para Lottenberg, é essencial mudar a maneira como se enxerga a saúde, tratando-a como um aspecto da vida plena, e não apenas como a ausência de doenças. Ele resumiu sua posição com a frase: ‘Cuidar da vida não é cuidar da doença, cuidar da vida é cuidar da vida’. Esse conceito envolve práticas simples e contínuas, além de revisar o que realmente configura um ‘bom sistema de saúde’. Ele desafiou a noção de que a excelência em saúde é proporcional ao investimento financeiro, citando a experiência dos Estados Unidos, onde altos gastos não necessariamente se refletem em melhores indicadores de qualidade de vida.
O Papel do Estado e as Desigualdades em Saúde
Ao discutir o papel do Estado na saúde e a importância da educação formal, Lottenberg compartilhou sua experiência na Secretaria de Saúde de São Paulo, onde aprendeu a valorizar as virtudes do sistema público de saúde, frequentemente subestimadas. ‘O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma grande conquista’, afirmou, lembrando que o SUS foi crucial para mitigar os impactos da pandemia. Para ele, há um vasto campo de atuação em saúde que não depende apenas de um orçamento elevado, mas sim de estratégias eficazes e da educação, que podem ter um impacto significativo.
O médico também destacou como fatores sociais influenciam diretamente a saúde, mencionando que eliminar questões relacionadas à pobreza poderia trazer benefícios consideráveis. Ao abordar a gestão e as disputas políticas no setor, Lottenberg defendeu que o foco deve ser a qualidade de vida do paciente, e não as ideologias políticas. ‘A saúde não pode se tornar uma ferramenta para disputas políticas; precisamos fazer política para a saúde’, reforçou.
Desafios e Necessidades na Comunicação Médica
Na sequência da entrevista, o médico discutiu as dificuldades em regular a indústria do tabaco e do álcool, observando como estratégias comerciais ajudaram a normalizar hábitos prejudiciais. Ele alertou sobre a necessidade de limites para esses produtos, citando o cigarro eletrônico como uma nova preocupação que pode ser ainda mais nociva. Lottenberg sustentou que os profissionais de saúde devem ocupar espaços de comunicação pública para combater a desinformação. ‘Nós, médicos, precisamos começar a nos envolver mais ativamente com a imprensa’, defendeu.
A conversa também abordou os usos medicinais da cannabis, onde Lottenberg insistiu na importância de uma abordagem científica rigorosa, sem romantizações. Ele criticou a ideia de que a cannabis não apresenta riscos, mencionando potenciais efeitos adversos na atenção e memória. Apesar disso, reconheceu a existência de indicações promissoras, como o tratamento de epilepsias refratárias e dores crônicas, e destacou a necessidade de mais pesquisas clínicas no Brasil.
Integração entre Saúde Pública e Privada
No final da entrevista, Lottenberg discutiu a relação entre o Hospital Israelita Albert Einstein e o SUS, enfatizando a importância de entender a saúde pública como parte do papel de uma grande instituição de saúde. Ele apresentou exemplos de hospitais públicos em São Paulo que realizam um trabalho significativo e de qualidade, reforçando que é possível oferecer excelentes serviços pelo SUS. ‘O Brasil pode fazer muito através do SUS’, concluiu, sublinhando que a humanização na prática médica vai além da tecnologia e dos equipamentos, sendo fundamental a presença da figura humana na medicina.
Lottenberg finalizou a conversa destacando a importância do respeito nas divergências de opinião e a construção de uma convivência democrática, onde o foco deve ser sempre a construção de um mundo melhor.

