Luiz Antonio Simas e a riqueza da cultura popular
Luiz Antonio Simas, historiador e escritor carioca, é conhecido por trabalhos como o “Dicionário da História do Samba”. Apesar de sua presença discreta no cenário cultural baiano, suas investigações mergulham profundamente na cultura popular brasileira, com destaque para o samba, a umbanda, o carnaval e a dinâmica das ruas. Seus textos oferecem uma perspectiva detalhada e sensível das expressões que moldam as identidades culturais nas cidades brasileiras, incluindo Salvador.
Livros que revelam o universo das ruas
Em 2025, a Editora Civilização Brasileira lançou duas obras significativas de Simas: “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras”, ambas pelo selo Editora José Olympio. Com 173 e 202 páginas, respectivamente, esses livros reúnem crônicas que exploram o cotidiano popular, a umbanda, o samba e a simbologia do Exu, figura essencial nas culturas carioca e soteropolitana.
Escritos em anos diferentes, 2019 e 2023, os livros dialogam ao retratar a vida nas ruas e as manifestações culturais que definem a sociabilidade urbana do Rio de Janeiro e do Brasil. Simas combina um olhar histórico com nuances picarescas, evitando estereótipos e apresentando a naturalidade dos espaços, como na crônica “A Casa da Tia Ciata”, que homenageia Hilária Batista de Almeida, sacerdotisa do candomblé e anfitriã dos encontros que deram origem ao samba carioca.
Cidade, cultura e transformações sociais
O autor une seu conhecimento histórico à experiência das ruas, passando por casas de santo, bares e quadras de escolas de samba, locais que são pilares da cultura popular. Suas crônicas refletem a identidade do Rio de Janeiro, mas também abordam as transformações urbanas recentes, como a mercantilização da cidade.
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Simas destaca que eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 consolidaram a ideia da “cidade-empresa”, onde o poder público, grupos econômicos e o turismo remodelam o espaço urbano. Essa dinâmica fragiliza instituições comunitárias, como as escolas de samba, que historicamente fortaleceram os laços sociais entre negros cariocas após a abolição. Essa reflexão reverbera na Bahia, onde manifestações culturais como o afoxé e o maracatu enfrentam desafios semelhantes diante da cultura de massa e dos blocos elétricos.
Personagens e narrativas da umbanda e do samba
Em “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras”, Simas destaca personagens populares, como Tião Casemiro, ogã renomado da umbanda, e outras figuras emblemáticas do samba e da religiosidade afro-brasileira. O autor alia sua origem popular ao rigor histórico, enriquecendo os textos com referências filosóficas, como a interpretação do “Angelus Novus” de Paul Klee sob o olhar de Walter Benjamin, associada à simbologia de Exu.
Essa combinação de história, cultura e filosofia confere às crônicas uma profundidade única, transformando-as em um espaço de conhecimento popular e urbano que revela a vida das ruas e seus protagonistas.
O cotidiano urbano sob o olhar do cronista
“O Corpo Encantado das Ruas” apresenta um Simas mais livre, que retrata o cotidiano nas ruas do Rio de Janeiro, com suas histórias, costumes e personagens diversos. Desde o samba de Seu Zé Pelintra até o jogo do bicho e o futebol, o autor constrói um retrato da cidade que vai além da superfície, conectando passado e presente. A crônica “Terreiro de São Sebastião, okê” destaca a fundação do arraial no sopé do Pão de Açúcar em 1565, revelando as raízes culturais e históricas do Rio e de Niterói.
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Como cronista, Simas atua como tradutor da cidade, capturando a essência do que pulsa nas ruas e oferecendo ao leitor uma compreensão aprofundada da cultura urbana. Seu olhar, crítico e poético, estabelece uma ponte entre a tradição de João do Rio e Baudelaire, iluminando a relação entre história, cultura e cotidiano.
Um convite para mergulhar na cultura popular
A produção de Luiz Antonio Simas vai além do relato; são ensaios que revelam a vida cultural que pulsa nas ruas, nas religiões e nos ritmos que formam o Brasil. Por meio de suas crônicas, ele convida o leitor a explorar as histórias que compõem o tecido social e cultural das cidades, ressaltando a importância de reconhecer e valorizar as manifestações populares como parte essencial da identidade nacional.
Para quem deseja entender a cultura popular sob um olhar crítico e sensível, “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras” ampliam a compreensão sobre as conexões entre história, arte e vida urbana.

