Um Olhar Crítico sobre a Tecnologia
A discussão sobre inclusão digital no Brasil precisa passar por uma reavaliação profunda. Para Sil Bahia, integrante do Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras, é imprescindível que as políticas direcionadas a esse setor reflitam a diversidade da população brasileira. “Se queremos políticas de inclusão digital que funcionem, elas precisam ter a cara preta, que é a maioria desse país”, afirma. Essa frase ressoa em um momento onde a formação em tecnologia pode ser um vetor de mudança, principalmente para mulheres negras.
O debate sobre a tecnologia muitas vezes ignora uma questão fundamental: devemos nos questionar sobre a necessidade das tecnologias que temos e como elas são apresentadas à sociedade. Para Sil Bahia, estimular o senso crítico começa a partir desse questionamento. “Não queremos apenas que as pessoas saibam ‘apertar botão’, mas que consigam fazer uma leitura crítica do mundo ao seu redor. Isso faz parte da formação de um olhar crítico e, consequentemente, da educação midiática, que é urgentemente necessária hoje”, ressalta.
Desafios na Proteção de Jovens nas Redes Sociais
Outro ponto levantado por Sil é a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Em tempos onde conteúdos impróprios estão facilmente acessíveis, a preocupação com a segurança desses jovens se torna urgente. “Quando falamos sobre o uso da tecnologia por esse público, o primeiro passo é trazer a discussão à tona. Precisamos falar sobre o problema para que possamos criar soluções efetivas”, enfatiza. Existe uma vulnerabilidade considerável nessa faixa etária, que pode resultar em impactos emocionais e comportamentais a longo prazo, como aumento da ansiedade e vício em telas. A proposta não é cercear o uso, mas estabelecer limites e contornos adequados.
Diálogo com o Ministério dos Direitos Humanos
A articulação com o Ministério dos Direitos Humanos é uma estratégia do Comitê de Tecnologia para fomentar o diálogo sobre inclusão digital. De acordo com Bahia, essa iniciativa é uma tentativa de estabelecer um compromisso com as pautas que estão sendo discutidas. “Queremos mostrar que temos propostas e que é fundamental dialogar com quem pode incorporar essas questões nas ações governamentais”, argumenta. Para ela, as políticas públicas precisam ser mais do que uma formalidade; devem ter um impacto real na vida da população.
Expectativas para o Futuro
Sil Bahia, que começou sua trajetória na tecnologia criando um site com uma amiga cineasta, tem grandes planos para o futuro do Olabi e das iniciativas que lidera. A intenção é ampliar o impacto do trabalho realizado, não apenas em números, mas também em qualidade. “Queremos melhorar a empregabilidade de pessoas negras e mulheres negras, mas de forma consciente, trazendo um pensamento crítico e desenvolvendo soft skills”, disse.
O que se pode esperar nos próximos anos, segundo Bahia, é um aprimoramento contínuo das práticas e processos, sempre visando uma inclusão real e efetiva. “Ainda há muito que fazer, mas é essencial que as políticas públicas de inclusão digital nomeiem raça e gênero. Sem isso, não conseguimos construir uma política que realmente atenda às necessidades da população”, conclui.
A Necessidade de Abordagens Interseccionais
Bahia ressalta que é crucial abordar a desigualdade digital de forma interseccional. É preciso considerar fatores como raça, gênero, renda e território ao criar políticas que visem uma inclusão efetiva. “Os dados existem e mostram diferenças significativas quando analisados sob essa perspectiva. Portanto, chamar atenção para essas questões é fundamental para que possamos avançar de forma justa e equitativa”, finaliza.

