Recordando a Amizade Através da Literatura
Na última Bienal do Livro da Bahia, realizada em Salvador, Paloma Amado e Pilar del Río, representantes das fundações que homenageiam seus pais, recordaram a amizade entre Jorge Amado e José Saramago. Essa relação, que se desenvolveu nos anos 90, foi marcada por um forte respeito mútuo e um compromisso com a liberdade de pensamento. Paloma, filha do renomado autor baiano, destacou que tanto seu pai quanto o Nobel português eram defensores da autonomia intelectual. “Eles colocavam o ser humano à frente de ideologias e partidos, e achavam fundamental pensar com a própria cabeça”, afirmou.
Pilar del Río, viúva de Saramago, complementou essa visão, lembrando que apesar de suas personalidades distintas – Amado, extrovertido e alegre; Saramago, introvertido e reflexivo – a amizade deles sempre foi descontraída e repleta de momentos de alegria. Ambas as autoras têm colaborado em projetos conjuntos, como a iniciativa Casa Amado e Saramago, que ocorreu na Festa Literária Internacional de Paraty em 2017, além do lançamento do livro “Com o mar por meio. Uma amizade em cartas”, que reuniu correspondências inéditas entre os dois escritores.
A Preservação da Memória Literária
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Durante a conversa com a equipe do GLOBO, Paloma e Pilar enfatizaram a importância da memória e da preservação do legado de seus pais. Com a administração das obras de Jorge Amado e José Saramago, ambas se comprometem a manter a qualidade e integridade das publicações. Paloma compartilhou que, ao negociar novas traduções, a prioridade não é o lucro, mas sim a qualidade do projeto literário. Por exemplo, a obra de Amado foi recentemente liberada de suas editoras na Itália, priorizando parcerias que valorizassem o texto e a Cultura local.
Ainda assim, a busca por novas traduções não se resume apenas a grandes mercados. A primeira tradução da obra de Amado para o armênio, embora tenha sido uma tiragem limitada a três mil exemplares e um valor simbólico de US$ 500, foi uma iniciativa que Paloma considera relevante. “Se precisasse, eu pagaria do meu bolso para ter o papai em armênio, uma língua que não estava presente na obra dele quando ele faleceu”, explicou.
A Função do Leitor na Literatura
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Pilar del Río enfatizou que seu trabalho vai além das questões comerciais. “Uma coisa é a literatura, outra é o mercado. Nossa responsabilidade é com a relação entre quem escreve e quem lê”, disse, refletindo sobre a importância de manter a literatura acessível e autêntica para o público. Na Fundação José Saramago, localizada em Lisboa, os visitantes podem explorar a biblioteca do autor e até experimentar um café enquanto relembram a presença de Saramago em suas vidas.
Em Salvador, a memória de Jorge Amado é igualmente celebrada. O Memorial A Casa do Rio Vermelho, situado na antiga residência onde o autor viveu, é um dos espaços culturais mais visitados do Brasil, atraindo admiradores de suas obras que incluem clássicos como “Gabriela, cravo e canela” e “Dona Flor e seus dois maridos”. Paloma relembra que seu pai acreditava que, após sua morte, ele poderia ser esquecido. No entanto, sua casa se tornou um importante ponto de visitação cultural e literária.
Conexões Inesperadas e Histórias de Vida
Em meio às recordações, Paloma compartilhou uma curiosidade: ao lado de uma atriz francesa famosa, Isabelle Huppert, fez amizade ao entregar uma edição especial produzida por ela. Depois, ao conversar com Huppert, que mostrou fotos de Jorge Amado com ícones do cinema, como Sophia Loren, Paloma se divertiu ao perceber que, mesmo em momentos de casualidade, a história literária de seu pai continua viva e surpreendente. “Quem deveria pedir a foto sou eu”, riu.
Com a presença constante de Pilar e Paloma em suas respectivas fundações, a amizade e o legado de Jorge Amado e José Saramago se entrelaçam em um esforço contínuo para preservar suas obras e suas mensagens, garantindo que futuras gerações conheçam e se inspirem por essas figuras emblemáticas da literatura.

