Um Ritual de Fé e Resistência Cultural
A próxima quinta-feira (15) marca mais um ano da Lavagem do Bonfim, um dos mais significativos eventos culturais da Bahia, que deve reunir milhões de pessoas em Salvador. O cortejo de oito quilômetros tem início na Basílica da Conceição da Praia e se dirige à Colina Sagrada, no Bonfim. Este ano, a festa traz o tema “Dai-nos paz, justiça e concórdia”, em homenagem aos 281 anos da chegada da imagem original do Senhor do Bonfim, que veio de Lisboa em abril de 1745.
Após a caminhada, a multidão vestida de branco presencia a lavagem das escadarias, um momento que as comunidades negras associam ao culto de Oxalá, orixá ligado à criação do mundo e à paz nas religiões de matriz africana.
Desde 1754, a Lavagem do Bonfim atrai milhares de fiéis não apenas da capital, mas de todo o estado da Bahia e também de outras regiões do país. Grupos se organizam com entusiasmo todos os anos, seja para fazer pedidos ou para agradecer pelas bênçãos recebidas.
O Retorno às Raízes
Marinalda Soares, coordenadora do Núcleo Feira de Santana da Rede Nacional de Mulheres no Combate à Violência, é um exemplo de como essa tradição pode ser revitalizada. Nos últimos seis anos, ela tem se mobilizado com caravanas para a celebração, retomando a prática familiar que havia deixado de lado após se tornar mãe.
“Eu comecei a participar muito jovem. Assim que as aulas terminavam, eu ia para a casa das minhas tias em Salvador com minha mãe. Mas quando ela parou de ir, eu continuei. Depois de ter filhos, parei de ir”, conta.
Esse cenário mudou com a iniciativa do Moviafro Feira de Santana, que busca relembrar que a fé pode ser expressa tanto a pé quanto de ônibus. O grupo passou a organizar viagens para a festa, sempre na segunda quinta-feira após o Dia de Reis. “Nosso ônibus fica lotado e saímos bem cedo. Chegando lá, nos juntamos à concentração e, ao longo do caminho, vamos conversando e reencontrando amigos”, relata Marinalda.
A Importância da Coletividade
Para a ativista, participar em grupo é essencial para manter os laços sociais vivos. “Passamos o ano todo militando, e após cada evento, cada um vai para o seu canto. Porém, quando nos reunimos nesses espaços construídos pelo povo preto, revigoramos esses laços”, enfatiza.
Dona Mari, como é conhecida, destaca que a lavagem é um exemplo do sincretismo religioso, uma estratégia de resistência das pessoas escravizadas que buscavam preservar sua fé em um contexto de opressão.
Em 2026, Marinalda estará mais uma vez na festa, desta vez integrando o Bando da Negona, uma caravana que parte às 5h, trazendo não só moradores de Feira de Santana, mas também de distritos e cidades vizinhas, como Antônio Cardoso. O grupo é uma articulação política organizada por mulheres negras para se manifestar em festividades como o Bando Anunciador, um cortejo realizado para marcar as celebrações em honra à Senhora Sant’Ana.
Uma Voz Contra a Injustiça
Urânia Santa Bárbara, uma das idealizadoras do Bando da Negona, explica: “O objetivo é desmascarar a política de extrema direita na nossa cidade e expor a falta de projeto para o povo negro. Com painéis e cartazes, denunciamos o racismo que persiste em Feira de Santana, que nunca teve uma vereadora negra em seus 192 anos”.
Embora o grupo tenha surgido a partir de uma iniciativa de mulheres negras, ele tem atraído cada vez mais pessoas de diferentes etnias que apoiam a causa. O que começou como uma celebração agora evoluiu para uma série de reuniões focadas em propostas culturais e políticas para a cidade. A ideia de participar da Lavagem do Bonfim surgiu desse movimento.
Reivindicação e Celebração
Para Urânia, a presença na Lavagem do Bonfim assegura a diversidade de corpos, cores e territórios na cidade. “Apesar de proximidades, muitas pessoas ainda não têm fácil acesso. Além disso, a Festa do Bonfim carrega um forte significado político, que fala sobre fé e a exclusão de certos grupos da vivência religiosa”, explica.
Ela relembra que a história da Lavagem do Bonfim está repleta de restrições que a população negra enfrentou durante o período colonial e imperial, quando eram banidas de participar plenamente dos ritos católicos e relegadas aos trabalhos de limpeza. “A presença é uma forma de marcar um espaço e mostrar que estamos atentos à invisibilização dos nossos corpos”, destaca.
Para Dona Mari, a mobilização de pessoas de diferentes idades e localidades para chegar à Colina Sagrada reflete a relevância de manter vivas as tradições populares e religiosas. “É uma maneira de honrar nossos ancestrais e dar continuidade ao que eles construíram. A festa cresce a cada ano, atraindo aqueles que vêm para celebrar e emocionar-se, sentindo os braços do Senhor do Bonfim abertos para todos”, conclui.

