A Luta por Eleições Livres e Justas
A principal figura da oposição na Venezuela, María Corina Machado, anunciou recentemente sua intenção de retornar ao país em busca de um papel central na transição política. Em suas declarações, a líder oposicionista enfatizou a realização de eleições livres e justas como a chave para um processo de mudança. Essa posição surge após a surpreendente captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, um evento que alterou drasticamente o panorama político em Caracas e deu início a novas negociações entre a Venezuela e os EUA, conforme apurado pela Reuters.
Prioridades e Reorganização da Oposição
Machado, que deixou a Venezuela em outubro de 2025, manifestou sua determinação em reorganizar a oposição e levar o país em direção a um pleito eleitoral com garantias institucionais. Embora reconheça as dificuldades decorrentes da fragmentação da oposição e a persistência das estruturas do regime anterior, a líder acredita que está pronta para enfrentar um desafio competitivo nas urnas.
Em relação a contatos com o governo dos Estados Unidos, Machado revelou que não tem tido comunicação recente com Donald Trump desde que seu reconhecimento internacional foi anunciado no final do último ano. No entanto, ela assegura que essa ausência de diálogo não afetará sua busca por apoio externo na luta por uma transição democrática na Venezuela.
Ambiguidade nas Relações com Washington
Embora tenha elogiado a operação que resultou na captura de Maduro, a líder opositora percebe uma certa cautela por parte do governo americano. Trump afirmou que uma transferência imediata de poder seria prematura, indicando que os EUA estão explorando soluções transitórias para garantir a estabilidade institucional e a segurança no país.
Além disso, Washington demonstrou abertura para dialogar com Delcy Rodríguez, presidente interina, sobre questões como segurança, narcotráfico e energia. Essa postura gera desconforto entre os opositores e intensifica a disputa pela legitimidade do processo político.
Desafios à Liderança Interina e Denúncias de Abusos
Machado tem sido clara ao rejeitar a legitimidade do governo de Rodríguez, que considera uma extensão do antigo aparato político. Ela atribui à presidente interina e seus aliados a responsabilidade por perseguições políticas e corrupções, e defende que a transição só terá credibilidade se houver a libertação de presos políticos e garantias eleitorais que possam ser verificadas.
Enquanto isso, as autoridades venezuelanas insistem que a ordem pública está sendo mantida, apesar de relatos de detenções temporárias de jornalistas e aumento das medidas de segurança em Caracas.
Contexto Econômico e Energético
A disputa política acontece em meio a negociações sobre a exportação de petróleo venezuelano para refinarias nos Estados Unidos. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, mas enfrenta uma queda significativa na produção devido a fatores como má gestão, subinvestimentos e sanções internacionais. A reabertura dos fluxos energéticos pode criar pressão sobre a estrutura da transição política, impactando a economia e a governabilidade do país.
O Cenário Social e Institucional
A sociedade venezuelana continua a ser marcada por uma significativa diáspora, inflação alta e serviços públicos em colapso. A expectativa em torno da promessa de eleições é grande, mas a presença residual de forças leais ao regime anterior, somada à falta de um cronograma consensual, contribui para um quadro de incerteza.
Desafios de Legitimidade e Pragmatismo
A tentativa de María Corina Machado de se consolidar como a principal liderança da oposição enfrenta desafios significativos. Ela precisa equilibrar a busca por legitimidade interna em um país com instituições fragilizadas e os interesses internacionais que priorizam estabilidade e segurança, especialmente no setor energético. O apoio externo não é garantido e os Estados Unidos têm deixado claro que há condicionantes para qualquer aliança.
O processo de transição na Venezuela tende a ser complexo e gradual, com o risco de que soluções híbridas possam preservar elementos do antigo regime. O sucesso de Machado dependerá menos de suas declarações e mais de sua capacidade de articulação, construção de garantias eleitorais e busca por um mínimo de convergência com atores internacionais.

