Uma trajetória de preservação e resistência
A televisão estava transmitindo ao vivo a tomada da embaixada dos Estados Unidos em Teerã quando Marion Stokes tomou uma decisão que mudaria sua vida e influenciaria um importante acervo histórico. Em 4 de novembro de 1979, durante a crise dos reféns no Irã, ela colocou uma fita no videocassete e pressionou “gravar”. Esse gesto simples deu início a uma missão obsessiva: a preservação da informação antes que ela se perdesse, fosse alterada ou esquecida ao longo do tempo.
Formada em biblioteconomia, Marion Stokes se destacou como ativista política e crítica contundente do poder da mídia. Nos 33 anos que se seguiram, até sua morte em 2012, ela gravou tudo o que era transmitido na televisão americana. Para isso, operava até oito gravadores simultaneamente, registrando noticiários, programas, comerciais e eventos históricos de emissoras como CNN, MSNBC, Fox News, CNBC e C-SPAN. Ao concluir seu projeto, acumulou mais de 300 mil horas de conteúdo em impressionantes 71.716 fitas de vídeo, coletadas ao longo de 12.094 dias seguidos.
Desconfiança e engajamento político
Segundo informações do portal Infobae, Marion Stokes nasceu em 1929, na Filadélfia, e construiu uma vida marcada pelo ativismo político e pela vigilância em relação ao poder. Ela participou ativamente do movimento pelos direitos civis, colaborou na organização da Marcha sobre Washington em 1963 e foi uma das fundadoras da Organização Nacional para as Mulheres (NOW). Durante o auge do macarthismo, chegou a ser monitorada pelo FBI devido a suas conexões com círculos socialistas. Essas experiências moldaram sua convicção de que a informação oficial precisava ser preservada em seu formato original.
Para Marion, o telejornalismo era responsável por moldar a opinião pública, mas a natureza efêmera das transmissões ao vivo tornava essa informação vulnerável. “Precisamos registrar isso; ninguém mais vai preservar”, disse ao filho, Michael Stokes, como citado no documentário “Recorder: The Marion Stokes Project”.
A rotina de uma gravadora incansável
Nos últimos anos de vida, Marion Stokes viveu reclusa, organizando sua rotina em função das gravações. Para acomodar seus equipamentos, comprou nove apartamentos onde armazenava televisores, fitas e gravadores. Durante as refeições, era comum que ela interrompesse sua refeição para trocar as fitas VHS, tornando-se praticamente isolada socialmente. Embora não tivesse catalogado o material, Marion criou um arquivo monumental, embora caótico, que documenta momentos históricos significativos, como a queda do Muro de Berlim, o desastre do ônibus espacial Challenger, os distúrbios de Los Angeles em 1992, os ataques de 11 de setembro e também importantes marcos da cultura pop e da publicidade.
Um legado digital e uma reflexão sobre a verdade
Após seu falecimento, o vasto acervo de Marion foi doado ao Internet Archive, uma organização sem fins lucrativos que ainda continua a digitalizar e processar o conteúdo. Em dezembro de 2024, a instituição divulgou novos vídeos da coleção, incluindo uma rara entrevista com Donald Trump dos anos 1980, além de documentos pessoais de Stokes. Para Michael, o legado de sua mãe reside na percepção de que a televisão não apenas informava, mas também construía narrativas. Registrar tudo foi, para Marion, uma forma radical de ativismo — e um alerta precoce sobre a memória, o poder e a verdade na era da informação.

