Uma Nova Abordagem para Relações Internacionais
Paulo Fábio Dantas, um analista político e escritor, destaca a importância do alerta do primeiro-ministro canadense Mark Carney durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. Carney, reconhecendo o impacto das políticas de Donald Trump, propôs que as chamadas potências médias se unam para opor-se à atual desordem internacional. A iniciativa é uma resposta clara à fragilidade da ordem mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, chamando a atenção para a necessidade de um novo equilíbrio que preserve tanto os interesses soberanos dos países quanto valores universais, como direitos humanos e democracia.
A reação relativamente tardia de Carney ecoa a cautela observada na diplomacia brasileira, considerando que tanto o Canadá quanto o Brasil estão sob a influência dos Estados Unidos. A proximidade geográfica do Canadá com os EUA, marcada por uma extensa fronteira, acentua a relevância do discurso de Carney. Embora algumas definições sobre potências médias possam ter ficado vagamente formuladas, a mensagem de abertura a qualquer país disposto a participar do novo processo é clara e abrangente.
Essa proposta, no entanto, não é ingênua. Carney reconhece as capacidades distintas de reação entre os países e procura construir uma alternativa aos enfoques trumpistas, como o controverso comitê de paz para Gaza, que parece desafiar o papel da ONU. Em vez de apelar retoricamente à autoridade cada vez mais questionada da ONU, Carney sugere uma abordagem de ação realista, defendendo a promoção dos direitos humanos e a assistência a populações afetadas por conflitos.
Reflexões sobre a Política Externa Brasileira
A fala de Carney representa um sinal claro para a política externa do Brasil. Para que o país se alinhe com os ideais sustentados pelo primeiro-ministro canadense, é crucial que a diplomacia brasileira adote um posicionamento semelhante, sintonizando-se com o Canadá e outras nações democráticas. O momento é propício, já que a política externa brasileira percebe uma conexão crescente com os conceitos apresentados por Carney, indo além da ideia de ‘Sul Global’ que dominou as discussões diplomáticas até recentemente.
A estratégia brasileira, ao buscar um equilíbrio entre as relações Sul-Sul e a influência dos Brics, deve considerar a realidade da atual gestão, que procura uma articulação mais coesa entre política e diplomacia. Essa busca por um novo eixo sugere uma convergência com a proposta canadense, que não vê a necessidade de se aliar a regimes autocráticos em resposta à ofensiva de Trump.
San Tiago Dantas e a Ideia do Outro Ocidente
O discurso de Carney resgata tradições da política externa brasileira que buscam um protagonismo equilibrado nas relações internacionais. A reflexão do ex-ministro San Tiago Dantas é particularmente relevante, ao definir uma política de não-alinhamento que favoreça a soberania nacional em vez da subordinação a potências estrangeiras. Dantas classificava os Estados em diferentes grupos, destacando a importância de um terceiro grupo onde os interesses externos se conectam à cooperação voluntária, um conceito que pode guiar a atual política externa brasileira.
A reflexão de Dantas sobre a experiência civilizatória no Brasil adiciona uma camada de complexidade ao discurso político contemporâneo, enfatizando o conceito de ‘outro ocidente’. Essa perspectiva, proposta por pensadores como José Guilherme Merquior, sugere que o Brasil deve encontrar sua identidade e seu lugar nas relações internacionais, sem se desvincular das tradições democráticas que moldaram sua história.
A Necessidade de Reavaliação nas Relações Internacionais
O discurso de Carney, portanto, não deve ser visto apenas como um apelo a novas alianças, mas sim como um convite à reflexão sobre a postura do Brasil na arena internacional. O país, com sua diplomacia histórica e sua capacidade de adaptação, pode liderar uma nova abordagem que não se limite a laços tradicionais, mas que também busque fortalecer sua soberania e seu compromisso com os direitos humanos. Essa é uma oportunidade de redefinir o papel do Brasil no mundo, em um tempo em que a política global atravessa transformações significativas.

