A Ópera Como Ponte Entre Culturas
Fortunato Ortombina, diretor-geral do Teatro Scala de Milão, compartilhou sua visão sobre a ópera como uma arte que transcende fronteiras culturais. Em uma conversa envolvente, ele destacou como a ópera serve como uma linguagem universal, capaz de ressoar com diversas civilizações. “Certa vez, pesquisei sobre Hilderaldo Bellini, zagueiro da seleção de 1958, em busca de uma conexão com o compositor Vincenzo, originário de Catania. Contudo, descobri que a família de Bellini é do Vêneto”, relata Ortombina, refletindo sobre a intersecção de cultura e identidade.
Com um histórico marcante, Ortombina ocupou um cargo de destaque no Teatro La Fenice, em Veneza, de 2017 até 2024. Em 2025, ele fez história ao se tornar o primeiro diretor italiano do Scala após uma sequência de três diretores estrangeiros. O Scala, um ícone da vida artística e cultural de Milão, é administrado por um conselho que envolve o prefeito, o Ministério da Cultura, a Câmara de Comércio e patrocinadores, interligando a casa com eventos significativos da cidade, como a Semana de Moda e o Salão do Automóvel.
Recentemente, a casa de ópera anunciou aberturas empolgantes para as temporadas futuras, incluindo “Otello” e “Um Baile de Máscaras”, ambas de Verdi. Ortombina também demonstrou curiosidade em explorar a obra de Carlos Gomes, um compositor brasileiro, com a produção de “Salvador Rosa” prevista para o próximo mês de julho no teatro municipal do Rio de Janeiro.
Desafios e Oportunidades no Cenário Operístico
Quando questionado sobre a herança deixada por seu antecessor, Ortombina disse: “Programar é fácil, o desafiador é concretizar essas programações. Com uma equipe de 900 colaboradores, é essencial garantir um ambiente propício ao sucesso. Tudo isso se constrói nas relações diárias, tanto dentro quanto fora do teatro.”
Ele enfatizou a importância do diálogo constante com a cidade, afirmando que a conexão entre o teatro e a comunidade deve ser cultivada. “Não se pode desistir; sempre há pessoas com quem me preocupo se não ouço há mais de um mês. É evidente que nem sempre se consegue agradar a todos”, acrescentou, destacando seu profundo conhecimento sobre Milão, resultado de sua experiência como diretor artístico em anos anteriores.
Ortombina reafirmou a relevância da ópera nos dias atuais, afirmando que é uma linguagem que vai além de fronteiras. “Não há como negar que todos já ouviram uma nota de Puccini. Até os indígenas da Amazônia, de alguma forma, têm contato com obras como o ‘Vincerò’ de Nessun dorma, cantado por Pavarotti”, disse. Ele ainda observou que as óperas são fundamentais para a formação de narrativas culturais contemporâneas, reconhecendo Verdi e Puccini como figuras que não apenas compuseram, mas também profetizaram por meio de suas obras.
Atualizando a Experiência Operística
Sobre como atualizar a experiência operística para se alinhar às expectativas do público moderno, que frequentemente compartilha suas experiências nas redes sociais, Ortombina afirma: “Muitos dizem que essa necessidade surgiu após a pandemia, mas a verdade é que hoje os teatros na Itália estão se repletos como nunca. O Scala mantém suas cadeiras preenchidas, pois o espectador ainda valoriza a experiência ao vivo.” Ele reforçou a singularidade da qualidade musical apresentada no Scala, que é inigualável no mundo.
Além disso, Ortombina também comentou sobre a importância de encenar obras inéditas, como “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, que atraiu um público significativo ao Scala. “As pessoas reconhecem as obras em outros formatos e estão abertas a novas propostas. Por isso, sou otimista em relação ao futuro da ópera”, declarou ele, ressaltando que há uma curiosidade crescente entre os jovens pela arte.
Possibilidades Culturais e Diálogo com o Brasil
A discussão sobre a conexão entre o Brasil e a ópera também foi abordada. Ortombina acredita que Carlos Gomes é um compositor de importância vital, especialmente considerando sua ligação com Milão. “O Brasil possui histórias ricas que podem ser exploradas em novas produções. Pensar em Jorge Amado, por exemplo, é abrir espaço para um diálogo profundo sobre a cultura e a natureza brasileiras. É uma oportunidade de reinterpretar narrativas”, sugeriu.
Por fim, ele refletiu sobre os riscos que a arte pode enfrentar em tempos de polarização política, ressaltando que é fundamental ter clareza sobre o que se arrisca. “Na pior das hipóteses, um erro pode ser superado”, concluiu, afirmando que, mesmo em tempos de incerteza, a música permanece como uma linguagem universal e poderosa.

