Levando cultura para além dos centros tradicionais
Moradores da comunidade de Águas Claras, em Salvador, tiveram a oportunidade de conhecer pela primeira vez o centro histórico da cidade e a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô). Entre eles, um grupo de mulheres com mais de 60 anos que frequentam a Biblioteca Comunitária Condor Literário. Soraia Santos Pinto, 61 anos, moradora local, compartilhou como o acesso à cultura transformou sua rotina, especialmente após enfrentar um quadro de depressão. Hoje, participa de aulas de boxe, capoeira e dança na biblioteca e, através do projeto cultural, visitou a Flipelô, a Fundação Casa de Jorge Amado e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) – espaços que ela nunca havia conhecido antes.
“Isso abre o nosso entendimento. Isso é cultura e é bom para a gente. Eu amei. Tem pessoas que nunca tinham vindo no Pelourinho, nunca estiveram aqui. Acho que deveriam fazer isso com a maioria da comunidade, levar a cultura ou trazer o povo até a cultura, já que a cultura não vai nas periferias”, destacou Soraia.
O impacto na formação das novas gerações
Maian Oliveira, 36 anos, também participou do passeio com seus três filhos, todos integrantes da capoeira Unira. Para ela, apresentar a cultura para as crianças é fundamental para que compreendam suas raízes. “A cultura mostra quem nós somos, de onde viemos. É muito importante apresentar isso para nossas crianças, que estão chegando agora.”
Maian ressaltou ainda as dificuldades enfrentadas para levar os filhos ao centro histórico de Salvador regularmente, especialmente pela logística do transporte quando há mais de duas crianças envolvidas. Isso evidencia as barreiras que muitos moradores de bairros afastados enfrentam para acessar os equipamentos culturais da cidade.
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Contexto e desafios em Águas Claras
Localizado a cerca de 25 minutos do centro histórico, o bairro de Águas Claras reúne uma comunidade que, segundo a articuladora territorial Aline Dias, mantém uma vida em rede com fortes laços tradicionais, mas que por muito tempo esteve à margem da cidade. A chegada do metrô e a construção da rodoviária têm começado a mudar essa dinâmica, ampliando o contato dos moradores com ações sociais e culturais.
Aline destaca que, apesar das diversas atividades promovidas no bairro, incluindo a biblioteca comunitária, ainda é necessário investir em políticas públicas que ampliem o acesso à cultura. “Precisamos pensar em iniciativas que valorizem ou deem vazão ao que acontece na comunidade”, afirmou. Ela reforça que as próprias comunidades desejam participar de eventos culturais e que há interesse em reproduzir feiras literárias e outras atividades, reconhecendo a literatura como um espaço para expressar suas vivências e cultura.
O papel do Circuito Cultural
O passeio que levou moradores de Águas Claras à Flipelô foi realizado pelo Instituto Motiva, por meio do projeto Circuito Cultural. A iniciativa visa ampliar o acesso à cultura para estudantes da rede pública e integrantes de organizações sociais, promovendo visitas gratuitas a instituições culturais de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
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O Instituto Motiva destaca que o cenário atual no Brasil ainda apresenta limitações e desigualdades no acesso a equipamentos culturais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que menos de um terço dos municípios brasileiros possuem museus, e a visitação concentra-se principalmente nas faixas de maior renda. A pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, reforça essa realidade, apontando que apenas 16% dos brasileiros visitaram um museu nos últimos 12 meses, e 13% participaram de festivais literários, demonstrando o baixo consumo cultural pela população.
Ariane Teles, especialista do Instituto Motiva, enfatiza que o principal objetivo do projeto é quebrar a barreira do acesso, reconhecendo a cultura como uma poderosa ferramenta de transformação social, educação e ampliação de repertório.
Com iniciativas como o Circuito Cultural, a circulação artística e o envolvimento das comunidades nos eventos culturais ganham força, abrindo caminhos para que mais pessoas possam vivenciar a diversidade cultural que Salvador e outras cidades oferecem.

