Rodelas Aguarda Com Expectativa pelo Oscar
RODELAS, BA (FOLHAPRESS) – Rodelas, uma pequena cidade da Bahia, é conhecida por sua produção robusta de coco, com cerca de 86 mil toneladas anuais, o que a torna a maior produtora do Brasil. Contudo, o que mais tem dominado as conversas locais não são os coqueiros, mas a expectativa pela próxima cerimônia do Oscar, onde a população acredita que seu conterrâneo, Wagner Moura, pode conquistar a primeira estatueta de melhor ator para o país.
Localizada à margem do rio São Francisco e a aproximadamente 566 km de Salvador, Rodelas abriga as memórias da infância de Moura. O município, que passou por transformações significativas devido à construção de uma hidrelétrica, foi onde o ator baiano viveu boa parte de sua juventude. Apesar de seu nascimento em Salvador, as raízes de Wagner estão firmemente plantadas no sertão baiano, de onde vem tanto do lado paterno quanto materno. O ator chegou à Rodelas ainda muito pequeno e se divertiu nas ruas de chão batido da cidade.
“Aproveitávamos muito o rio para brincar. Não havia celulares, e a gente fazia peças de teatro e outras brincadeiras na rua”, conta Joedson Ribeiro, 51 anos, diretor de Esportes e Cultura de Rodelas, que conheceu Wagner desde a infância.
A carreira de Wagner Moura teve início em 1987, quando se destacou em um grupo de teatro amador local chamado Guterchaplin. Sua primeira atuação foi em uma peça de Natal intitulada “A Profecia”, encenada nas ruas da cidade. O diretor teatral Rangel Amaral, 58, que fez parte do grupo, recorda: “Eu convidei Wagner porque percebi que ele tinha um talento especial desde criança.”
A Inundação que Mudou Rodelas
Em 1988, a cidade enfrentou uma mudança drástica com o início da construção da Barragem de Itaparica, que resultou na inundação de sete cidades, incluindo a antiga Rodelas. Rosalvo de Almeida Rodrigues, 64 anos, agricultor e pesquisador da história local, descreve aquele período como um dos mais tristes para a população. “Foi um momento muito difícil para todos nós”, afirma.
A nova Rodelas foi erguida a poucos metros do local anterior, em uma área mais elevada, mas a mudança deixou cicatrizes profundas na comunidade. Hoje, ainda é possível avistar partes do que foi a cidade submersa, como a caixa d’água que abastecia os moradores. “Antes, éramos cercados por belezas naturais, com cachoeiras e ilhas que atraíam visitantes. Essa inundação levou nossas raízes históricas e culturais”, lamenta Rodrigues.
Um documentário da época mostra um jovem Wagner expressando seu descontentamento com a mudança. Para ele e muitos outros, a nova Rodelas parecia estranha. “É uma cidade moderna, com ruas planejadas, mas sem a história que tínhamos antes. Tudo aqui é novo, e nossa memória ficou submersa”, desabafa o pesquisador.
A Contribuição de Wagner Moura para a Arte
A família de Wagner permaneceu na nova Rodelas até 1990, quando se mudaram para Salvador. Na cidade, ele ainda participou de uma última peça, “A Estrela”. O diretor teatral Rangel Amaral recorda que Wagner sempre teve uma personalidade distinta. “Ele era criativo, sempre trazia novas ideias e se destacava entre os outros”, relembra.
Apesar de poucos familiares ainda estarem em Rodelas, o tio de Wagner, Everaldo Maniçoba Ferreira, 65 anos, expressa seu orgulho pelo sucesso do sobrinho. Ele lamenta que sua avó materna, que era uma grande fã das novelas de Wagner, não pôde ver seu sucesso. “Na nossa família, não há artistas. É impressionante como ele se destacou”, comenta.
Com pouco mais de 10 mil habitantes, segundo dados do IBGE, a cidade está empolgada com a possibilidade de um Oscar para Wagner Moura, que acontece no próximo domingo (15). A pescadora Cícera Maria Silva dos Santos, 54 anos, não hesita em afirmar que “ele vai chegar lá, em nome de Jesus”. Ela acredita que a cidade já tem motivos para se orgulhar da vitória de Wagner no Globo de Ouro e que conquistar um Oscar seria ainda melhor.
Enquanto isso, o professor Paulo Afonso dos Santos, 68 anos, recorda com carinho das memórias de Wagner na cidade. “Aqui todos gostam dele e celebram suas conquistas”, diz ele, em frente à igreja matriz de Rodelas, que também foi palco para o Guterchaplin. Apesar de ser o único grupo de teatro local, o sonho de manter viva a arte na cidade persiste, e o diretor teatral acredita que novos talentos podem surgir. “Rodelas tem muito talento que precisa ser descoberto. Quem sabe um novo Wagner Moura não aparece por aqui?”, conclui, esperançoso.

