Fotografia e a Relevância do Olhar Humano
A presença do fotógrafo como um mediador sensível da realidade permanece como um pilar do jornalismo, mesmo com a ascensão da inteligência artificial (IA) e inovações nas tecnologias de imagem. Essa visão é compartilhada por profissionais experientes, que acreditam que, embora a tecnologia possa ser um suporte valioso, ela nunca substituirá a percepção humana, essencial em decisões éticas, construções narrativas e registros históricos.
O debate sobre essa temática ganhou força na quinta-feira (08/01/2026), em celebração ao Dia do Fotógrafo, um momento que incentivou reflexões sobre a influência da IA nas profissões criativas. Para fotógrafos, professores e gestores de imagem, o ato de fotografar envolve escolhas que excedem o mero domínio técnico; é necessário ter sensibilidade em contextos sociais complexos.
Experiências que Definem a Fotografia
Um exemplo marcante é a vivência do repórter-fotográfico Joédson Alves durante a cobertura da seca no Nordeste nos anos 90. Ele se recorda de uma mãe que havia perdido dois filhos para a fome e, diante dessa realidade, o fotógrafo teve que equilibrar o registro da cena com a responsabilidade humana. A decisão de criar uma imagem que informasse e tocasse o público foi crucial.
Com mais de 35 anos de experiência na área, Joédson Alves, hoje gerente executivo de Imagem, Arte e Web da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), é enfático ao afirmar que o papel do fotógrafo em uma instituição pública é garantir o direito à informação, contribuindo para a memória coletiva do país. Para ele, a tecnologia deve ser uma aliada do interesse público, sem, no entanto, usurpar o julgamento humano.
A Tecnologia como Aliada da Credibilidade
Joédson enfatiza que decisões como enquadramento, momento do clique e narrativa visual são intrinsecamente humanas, orientadas por conhecimentos técnicos e responsabilidade social. A junção desses fatores com ferramentas tecnológicas, segundo ele, fortalece a credibilidade da informação e o valor histórico das imagens no contexto jornalístico.
Além disso, Joédson observa que empresas fabricantes de equipamentos têm se esforçado para desenvolver mecanismos que comprovem a autoria humana das imagens, uma resposta ao avanço da IA. Em coberturas sensíveis, essa questão é vista como fundamental para assegurar ética, transparência e confiança na informação visual.
Democratização e Limites da Inteligência Artificial
O professor de Fotojornalismo Lourenço Cardoso, do Centro Universitário de Brasília (Ceub), analisa que a digitalização ampliou o acesso à fotografia, que antes era marcada por altos custos de equipamentos e processos de revelação. Para o pesquisador, a mecanização e a fotografia digital democratizaram a produção de imagens, amplificando sua presença além dos círculos privilegiados.
No entanto, Cardoso ressalta que a fotografia continua a ser uma expressão da subjetividade, característica que sistemas automatizados não podem replicar. Para ele, a habilidade de manusear equipamentos é apenas uma etapa inicial; o resultado fotográfico depende da percepção e experiência do fotógrafo em relação à realidade.
A Sensibilidade como Resposta à Desinformação
O fotógrafo Ricardo Stuckert, com uma carreira de mais de 30 anos e representando a quarta geração de fotógrafos em sua família, afiança que a presença humana se torna ainda mais vital em um cenário repleto de imagens geradas automaticamente. Atuando atualmente como secretário de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual do governo federal, ele argumenta que a IA pode gerar imagens, mas não consegue reproduzir a sensibilidade e o contexto que um fotógrafo humano oferece.
Conforme Stuckert, as fotografias não apenas documentam eventos, mas servem também como testemunhos da realidade, oferecendo visões que vão além do que é escrito. Portanto, o registro fotográfico é visto como um instrumento crucial no combate à desinformação e na preservação da memória coletiva.
Ao considerar os benefícios da IA, Joédson Alves pondera que a tecnologia pode oferecer agilidade e eficiência, desde que não substitua a ação do fotógrafo ou comprometa a sensibilidade necessária. Para os especialistas consultados, o verdadeiro desafio reside na integração de inovações tecnológicas com ética, responsabilidade social e a necessária autoria humana.

