Uma Cidade de Veraneio
Serrinha, nos tempos antigos, era um destino procurado não apenas para lazer, mas também para a cura de doenças, atraindo visitantes em busca de seu ar fresco e clima ameno. É difícil imaginar que, em um passado não tão distante, essa cidade foi reconhecida como um local ideal para o veraneio, especialmente para aqueles que buscavam tratamento para enfermidades como tuberculose e cólera. As mudanças de época, impulsionadas pela construção da linha férrea em 1880, que facilitou o acesso, e o desenvolvimento de hotéis, contribuíram para essa fama.
Hoje, a cidade não é reconhecida pela sua atividade turística, ao contrário de outras áreas da Bahia, como o Vale do Jiquiriçá, que possui vários hotéis fazenda. Embora o clima de Serrinha tenha se mantido favorável, com áreas ainda frescas e agradáveis, a cidade nunca se dedicou a cultivar essa faceta comercial. Regiões como Manga, que já foram produtivas, e o núcleo central de Serrinha, cercado de serras, refletem uma história rica que poucos se lembram.
No início do século XX, o costume de veranear estava restrito a classes mais abastadas. Entre os meus avós, não existe registro de veraneio fora de Serrinha, já que nas capitais, as praias eram habitadas por pescadores e não estavam ainda no imaginário como locais de lazer. Somente no início dos anos 1900 as praias começaram a ser vistas como terapêuticas.
Serrinha na Era da Gripe Espanhola
O “Jornal de Serrinha” nos traz relatos dos anos de 2017 a 2019, que mostram como a cidade ainda atraía veranistas. Em uma edição, é mencionada a visita de Dr. Mário Cardoso Costa e sua família, que chegaram da capital em busca de descanso. No entanto, essa época também foi marcada pela preocupação com a ‘Gripe Espanhola’, uma epidemia devastadora que começou nos Estados Unidos e se espalhou rapidamente.
Entre 1918 e 1920, milhares de pessoas buscaram os ares serenos de Serrinha, temendo a doença. O “JS” registrou diversos artigos detalhando os sintomas da gripe e até receitas caseiras para tratar os doentes. As recomendações incluíam desde repouso ao ar livre até medicamentos improvisados, evidenciando como as pessoas se adaptavam às circunstâncias, confiando no que a natureza oferecia para a cura.
Na verdade, o clima e a vida no campo acabaram por proteger a população local dos efeitos mais severos da epidemia. Com uma dieta rica e o acesso à natureza, raramente ocorreram mortes registradas na cidade durante a crise sanitária. O veraneio, mesmo que ainda incipiente, começou a ser valorizado.
Transformações e Novidades no Século XX
Na década de 1940, a descoberta de um aquífero quente na Fazenda Macaco, em busca de petróleo pela Petrobras, trouxe novidades para a região. Com o surgimento do Balneário Caldas do Jorro, as águas termais passaram a ser um atrativo, atrair pessoas em busca de tratamentos de saúde. A presença de figuras influentes, como Getúlio Vargas, consolidou a fama do local.
Mesmo assim, meus avós e meus pais preferiam a tranquilidade de Serrinha. Na época, as famílias costumavam ir a fazendas para aproveitar o clima ameno e o contato com a natureza. No entanto, com a crescente urbanização e a violência, muitos acabaram abandonando suas casas de veraneio. Infelizmente, a sensação de proteção que o campo oferecia começou a se dissipar.
O Patrimônio Cultural de Serrinha
Entre as décadas de 1910 a 1950, os pontos turísticos em Serrinha eram simples, mas encantadores. A cidade em si, com suas praças, igrejas e o campo de aviação, atraía as famílias. A Praça Luís Nogueira, com sua igreja matriz, se destacava como um centro de convivência. Além disso, o Retiro, uma capela construída em 1829, se tornou um importante local espiritual, que ainda existe e prospera com um pequeno comércio de artesanato.
Com o passar do tempo, as memórias do veraneio em Serrinha se tornam cada vez mais raras. A cidade, que um dia foi um refúgio de saúde e descanso, vê seus costumes se diluírem, mas sua essência continua viva nas lembranças de quem ali cresceu. Esse passado nos revela a importância de valorizar a cultura local e as tradições que moldaram a identidade de Serrinha, um legado que deve ser preservado para as futuras gerações.

