Repasse Bilionário e Suspeitas de Irregularidades
BRASÍLIA – O governo da Bahia realizou um investimento de R$ 140,1 milhões em uma associação de servidores, a qual é administrada pelo ex-diretor do Banco Master, Augusto Lima. Esse montante foi direcionado a empresas que, de acordo com o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), estão ligadas ao próprio Augusto Lima e à instituição financeira de Daniel Vorcaro.
As informações foram divulgadas em um relatório que foi entregue à CPI do Crime Organizado, revelando transações ocorridas entre maio de 2024 e novembro de 2025, durante a gestão de Jerônimo Rodrigues (PT). O governo estadual não se manifestou sobre o fato até o fechamento desta matéria, enquanto a equipe de Augusto Lima optou por não comentar.
Detalhes dos Repasses e a Estrutura da Associação
Do total de R$ 140,1 milhões, R$ 65 milhões foram transferidos diretamente pela Secretaria da Fazenda do estado, enquanto dois fundos de pensão dos servidores públicos estaduais, sob administração do governo baiano, alocaram mais R$ 74,1 milhões para a Associação dos Servidores da Saúde do Estado (Asseba) em favor do Banco Master. Esse valor representa mais de 80% dos R$ 168,7 milhões que a Asseba reportou em receitas durante o período analisado pelo Coaf.
Além dos repasses da Fazenda, os fundos de proteção social dos policiais e bombeiros, assim como o fundo de previdência dos servidores públicos, também contribuíram com um total de R$ 150 mil. O relatório detalha que a Asseba destinou R$ 101,3 milhões ao Banco Master e outros R$ 21,7 milhões a duas empresas, Vida Serviços Administrativos e ACB Processamento de Dados, que têm Augusto Lima como um dos proprietários.
Indícios de Irregularidades e Vínculos Suspiciosos
O Coaf levantou suspeitas de movimentações financeiras que não condizem com o faturamento declarado pela Asseba, incluindo a possibilidade de que a conta da associação tenha sido usada para transferências financeiras irregulares. O relatório menciona o “recebimento de recursos com imediato débito de valores” e pagamentos de boletos sem justificativa clara.
Adicionalmente, a Polícia Federal identificou que a Asseba usava os mesmos contatos telefônicos e endereços de e-mail que a Terra Firme da Bahia Ltda, outra empresa associada a Augusto Lima. A associação forneceu à Receita Federal um e-mail que coincide com o utilizado pela empresa do executivo. Flavia Peres, esposa de Augusto Lima e ex-ministra da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro, agora dirige o Instituto Terra Firme, que compartilha nome e, potencialmente, interesses com a empresa.
Investigações em Andamento e Contexto do Crédito Consignado
O Coaf ressaltou que a relação entre o Grupo Terra Firme e o Banco Master é complexa, envolvendo diversas pessoas e projetos. Augusto Lima, que já ocupou cargos importantes no banco, fundou tanto o Grupo Terra Firme quanto o Instituto que leva seu nome. Ambos estão vinculados a investigações sobre operações financeiras potencialmente irregulares relacionadas a carteiras de crédito consignado.
A Asseba também está sob investigação na Operação Compliance Zero, que visa apurar a participação da associação na criação de carteiras de crédito falsificadas que teriam gerado prejuízos de R$ 12,2 bilhões para o BRB. O Banco Master, que assumiu o controle das operações de crédito consignado de servidores públicos após adquirir o Credcesta, tem enfrentado sérias críticas e investigações em decorrência de suas práticas financeiras.
A Credcesta, criada em 2018, foi projetada para auxiliar a população de baixa renda a realizar compras em supermercados e oferecer empréstimos com desconto na folha de pagamento. A venda dessa empresa ao Banco Master permitiu que o banco de Vorcaro passasse a controlar esses serviços financeiros. A Bahia mantém a exclusividade para o Credcesta até 2033, o que levanta ainda mais questões sobre a gestão e a transparência das operações financeiras no estado.

