Transformação da Baía de Todos os Santos
A Baía de Todos os Santos, um dos maiores tesouros naturais do Brasil, completa 500 anos de debates sem resultados concretos. Apesar das muitas conversas e discussões, as ações efetivas permanecem escassas. Recentemente, um painel intitulado “A Baía de Todos os Santos, a Singapura das Américas e capital da Amazônia Azul” foi apresentado pela secretária de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda de Salvador, Mila Paes, durante o evento Bahia Export 2026, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). O encontro teve a participação de cerca de 250 representantes de setores público e privado interessados em desvendar como a infraestrutura portuária e a economia azul poderão mudar a dinâmica econômica da região.
Os debates reuniram especialistas que discutiram os gargalos e as soluções para o setor. Dentre os participantes estavam Guilherme Nogueira Dutra, da Wilson Sons, Josias Cruz, da Aciclem, e Waldeck Ornélas, do Instituto Desenvolve Bahia. Mila Paes fez um interessante paralelo entre a Baía de Todos os Santos e Singapura, destacando o potencial da cidade como um entreposto logístico estratégico. “Estamos no ponto médio do Brasil, com uma localização privilegiada entre a América, a África e a Europa. A eficiência logística de nossos portos é de padrão internacional. O potencial de atração de cargas do oeste da Bahia é imenso, especialmente considerando que somos o segundo maior produtor de algodão do Brasil nesse mesmo local. Essa logística pode reduzir significativamente os custos de transporte”, afirmou a secretária.
Polo Logístico e Desafios a Superar
Mila enfatizou a importância da economia do mar como um caminho viável para a recuperação econômica de Salvador. “Já somos a capital da Amazônia Azul, mas agora é crucial que façamos escolhas estratégicas, assim como Singapura fez em seu desenvolvimento como um polo logístico e de exportação. Não podemos ignorar que o futuro econômico da cidade passa pelo mar”, defendeu.
O diretor comercial da Wilson Sons, Guilherme Nogueira Dutra, destacou a importância de um planejamento a longo prazo, ressaltando: “Pensar em Salvador seguindo o caminho de Singapura é desafiador, porém interessante. Isso requer uma estratégia sólida e a capacidade de ir além do imediatismo. Precisamos focar no futuro, especialmente no que diz respeito à multimodalidade e aos corredores de transporte eficientes, algo que Singapura construiu desde a década de 1960. Devemos iniciar esse processo imediatamente para colher resultados no futuro”.
Ele também frisou a necessidade de melhorias nas estruturas logísticas: “Devemos aprimorar os acessos para aumentar nossa eficiência. A prioridade deve ser a acessibilidade, além de investir na qualificação da mão de obra, com motoristas especializados em transporte voltado à exportação”.
Integração Regional e Oportunidades de Crescimento
Waldeck Ornélas, consultor do Instituto Desenvolve Bahia, abordou a superação do isolamento logístico como fundamental para o crescimento do estado. “A Bahia enfrenta um desempenho de desenvolvimento aquém do esperado e o isolamento logístico é um fator que pesa bastante. Podemos progredir ao melhorar nossa eficiência e atrair novos investimentos. Salvador precisa estar bem conectada ao oeste baiano”, afirmou.
Ele também falou sobre a relevância da integração regional e o papel das ferrovias: “É essencial que tenhamos um plano claro para que Salvador se torne o principal porto do Matopiba. Projetos precisam ser integrados para assegurar uma infraestrutura eficiente. A retomada da Ferrovia Centro-Atlântica é crucial para expandir nossas oportunidades portuárias, trazendo impactos positivos para o polo logístico de Valéria”.
Josias Cruz, presidente da Aciclem, trouxe à tona a questão do escoamento do algodão. “Precisamos preservar o que já temos. Embora o transporte rodoviário seja eficiente, o Brasil, com suas dimensões continentais, precisa melhorar ainda mais seus modais. Atualmente, cerca de 20% do algodão é exportado por Salvador, e essa tendência só tende a crescer. Por isso, o transporte rodoviário merece atenção especial”.
Com essas discussões acaloradas em torno da Baía de Todos os Santos, fica evidente que, apesar de tantos séculos de debate, o momento para a ação não poderia ser mais propício. Transformar esta região em um polo logístico robusto pode não apenas revitalizar sua economia, mas também solidificar sua posição no cenário global.

