Uma Jornada de Sucesso na Alfaiataria
Rosendo dos Santos, um alfaiate baiano nascido em Teodoro Sampaio e com 71 anos, construiu uma carreira impressionante no Rio de Janeiro. Ele é um dos responsáveis por confeccionar os fardões utilizados por importantes figuras da Academia Brasileira de Letras (ABL). “Aprendi o ofício com meu pai”, relembra Rosendo, enfatizando suas raízes em uma tradição familiar que se estende por gerações.
A mudança para o Sudeste representou um divisor de águas em sua trajetória profissional. “Saí da Bahia em 1983, pois a minha profissão não era tão valorizada quanto eu esperava. Vim para o Rio com minha esposa e três filhos pequenos”, recorda. Atualmente, ele compartilha o amor pela alfaiataria com sua filha caçula, Ytailandia, enquanto se estabelece como um criador de trajes repletos de significado, como o famoso fardão da ABL.
Fardão: Um Símbolo de História e Exclusividade
Para Rosendo, o fardão é mais do que uma vestimenta; ele é um emblema de simbolismo, tradição e exclusividade, algo que poucos trajes possuem no Brasil. “Essa peça exige um rigor técnico e um respeito absoluto ao passado”, destaca. O alfaiate explica que o desafio maior está na modelagem e na montagem, já que a confecção do fardão é um processo que exige um equilíbrio entre o artesanal e o técnico. “Cerca de 75% da peça é feita à mão, enquanto 25% é realizada à máquina, o que envolve muito trabalho de alinhavo e costuras manuais”, revela.
O cuidado na produção reflete-se no tempo dedicado ao processo, que leva cerca de dois meses entre o primeiro encontro e a entrega final. “É um trabalho fiel à tradição; modificações podem ocorrer, mas sempre com autorização”, ressalta. Rosendo entrou nesse universo após ser apresentado à ABL pelo figurinista Marcelo Pies. Desde então, ele teve a honra de vestir ícones da cultura brasileira, como Fernanda Montenegro, Gilberto Gil e, mais recentemente, Milton Hatoum, que tomará posse no próximo dia 24 de abril.
Histórias que Marcam
Sobre o traje de Hatoum, Rosendo enfatiza a fidelidade às normas da ABL. “O fardão foi confeccionado estritamente conforme os costumes da academia”, afirma. Ao recordar suas experiências com Fernanda e Gilberto, destaca a simplicidade e o trato cordial dos clientes. “Foi um processo muito tranquilo, pessoas fantásticas que me receberam bem”, conta. Uma lembrança especial ocorreu durante a pandemia, quando fez o fardão de Fernanda. “Ela pediu que eu tirasse a máscara para a foto, fiquei receoso, mas atendi seu pedido”, lembra, com um sorriso no rosto. Se tivesse a oportunidade, Rosendo escolheria vestir Jesus Cristo. “Faria um manto para Ele”, declara.
Desafios da Alfaiataria Moderna
Apesar do prestígio e da notoriedade de vestir figuras ilustres, Rosendo observa um cenário preocupante para a alfaiataria. “A profissão está se tornando escassa. Alfaiataria não é apenas um estilo; é um trabalho artesanal feito sob medida, com materiais de alta qualidade, que estão se tornando cada vez mais raros e caros. Hoje, encontramos muitos tecidos de poliéster no mercado, uma solução mais barata, mas que desvaloriza tanto a roupa quanto o trabalho artesanal”, lamenta.
Apesar dos desafios, o reconhecimento pelo seu trabalho continua a ser uma fonte de motivação. “Para mim, é um grande privilégio, nesta fase da minha vida, confeccionar roupas para grandes imortais. É uma emoção indescritível, até porque poucas pessoas conseguem chegar onde cheguei”, expressa Rosendo, que mantém seu ateliê em Curicica, na zona oeste do Rio de Janeiro. Lá, ele também se dedica a ensinar jovens que desejam aprender o ofício. “Neste mesmo ateliê, já confeccionei 15 fardões apenas para a ABL”, destaca com orgulho.
Uma Tradição que Persiste
A tradição dos fardões da ABL já passou por diversas mãos ao longo dos anos. Durante muito tempo, o alfaiate Diógenes Cardoso foi o principal responsável. Recentemente, outros nomes como Eduardo Giannetti colaboraram com Marcelo Pies, enquanto Julia Parker criou peças para Míriam Leitão e Edgar Telles Ribeiro. Existem também casos, como o de Paulo Henriques Britto, cujo traje foi doado e apenas ajustado, e Ana Maria Gonçalves, confeccionado por costureiras da Portela.

