Moedas sociais impulsionam a economia local na Bahia
O dinheiro, para grande parte das pessoas, é o que organiza a rotina diária: garante alimentação, lazer e planejamento futuro. Mas e se essa forma de pagamento fosse diferente? Imagine adquirir o pão do café da manhã com a “Concha” ou pagar o salão de beleza com “Guaraná” – moedas sociais que circulam restritamente em comunidades baianas, longe das cédulas tradicionais. Essas moedas representam uma estratégia de economia solidária, criada para fortalecer a renda e o comércio local.
Essas moedas são geridas por bancos comunitários e mantêm a circulação financeira dentro do território onde foram implantadas, promovendo o desenvolvimento sustentável das localidades. Atualmente, as moedas sociais estão presentes desde pequenas comunidades no sertão baiano até bairros de Salvador, servindo como importante ferramenta de auxílio financeiro e incentivo ao consumo interno nos mercados e serviços locais.
Bancos comunitários: um pilar da economia solidária
O superintendente de Economia Solidária e Cooperativismo da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia (Setre-BA), José Paulo Crisóstomo, explica que as moedas sociais têm circulação restrita e um objetivo claro: a redução da pobreza. Os bancos comunitários, que fazem parte desse movimento, são instituições financeiras geridas por associações comunitárias ou ONGs, voltadas para o desenvolvimento local, sem fins lucrativos.
Esses bancos atuam de três formas principais: emitem moedas sociais (físicas ou digitais) para uso em comércios locais; oferecem microcrédito produtivo com juros baixos ou zero, baseados na confiança e garantias solidárias; e realizam a gestão comunitária desses recursos. O sistema incentiva o consumo local, fortalece o empreendedorismo e reduz o endividamento da população.
Moeda social vai além do dinheiro: é rede de apoio
Para moradores como Antônia Correia, da Ilha de Matarandiba, a moeda social “Concha” representa mais do que um meio de pagamento. Antônia relata que o acesso à moeda e ao microcrédito foi fundamental para a realização do sonho da casa própria, já que pôde comprar materiais em lojas locais que aceitam a moeda.
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Fonte: rjnoar.com.br
“A moeda me ajudou muito nas horas que mais precisei, trouxe apoio e dignidade”, afirma. O sentimento de pertencimento é uma característica marcante dessas moedas, que também funcionam como suporte emocional, promovendo autonomia e orgulho entre os participantes.
Autonomia e fortalecimento econômico local
A implantação das moedas comunitárias gera uma circulação interna de renda que beneficia diretamente o município ou bairro. Segundo José Paulo Crisóstomo, essa iniciativa cria empregos, fortalece o comércio local e dá autonomia às pessoas para adquirirem o que realmente necessitam.
A primeira moeda social reconhecida no Brasil foi a “Palma”, criada em Fortaleza em 1998, e serviu de inspiração para o mecanismo adotado na Bahia. O sistema funciona como complemento ao Real, evitando a fuga de recursos e fomentando o empreendedorismo local.
Contexto bancário e inclusão financeira na Bahia
Com o fechamento de 32,9% das agências bancárias físicas entre 2015 e 2025 no Brasil, especialmente em cidades menores, as moedas sociais e bancos comunitários surgem como alternativa para inclusão financeira. Na Bahia, já existem oito bancos comunitários ativos. Há diferentes modalidades, como bancos que circulam apenas moeda física, moedas digitais via aplicativo e bancos municipais vinculados a programas sociais.
Identidade cultural e pertencimento
Além do aspecto financeiro, as moedas sociais têm papel importante na construção da identidade local. O superintendente da Setre-BA destaca que os nomes das moedas são escolhidos para refletir características culturais da comunidade, reforçando o senso de pertencimento. Exemplos são a moeda “Itapicuru”, em homenagem ao rio de Queimadas, e a “Concha”, que remete à tradição pesqueira de Matarandiba.
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Fonte: aquiribeirao.com.br
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Fonte: ctbanews.com.br
Exemplos de moedas sociais na Bahia
Em Queimadas, está previsto para este ano o lançamento da moeda digital “Itapicuru”, que será utilizada em programas sociais locais, substituindo a entrega direta de benefícios por repasses em moeda social para compras em comércios cadastrados.
No bairro do Uruguai, em Salvador, a moeda “Umoja” — palavra que significa “unidade” em swahili — é usada em mais de 50 estabelecimentos para fortalecer a economia local. Já Cardeal da Silva criou o banco municipal e lançou a moeda “Mineral”, vinculada a programas sociais e com expectativa de oferecer microcrédito a pequenos empreendedores.
Em Santa Bárbara, a moeda “Pacatu” foi lançada em 2025 durante as comemorações dos 64 anos da cidade, com o objetivo de fortalecer o comércio local e gerar mais oportunidades para a população.
Na Vila de Matarandiba, a moeda “Concha” nasceu em 2008 para estimular o consumo local, sendo uma homenagem direta aos pescadores da região. O Banco Comunitário Ilhamar, que emite essa moeda, é um exemplo consolidado de economia solidária na Bahia.

