Um novo olhar sobre o turismo na Bahia
A Bahia tem se destacado por atrair um perfil de turista que vai além dos roteiros tradicionais. Não basta mais visitar os pontos turísticos clássicos como Pelourinho, Elevador Lacerda ou Porto da Barra. Hoje, quem vem para cá busca uma imersão cultural profunda, interessando-se por histórias, personagens e sabores locais. Esse turista deseja participar de rodas de capoeira, aprender a tocar instrumentos de percussão, dançar o samba de roda do Recôncavo Baiano, preparar moqueca ao lado de cozinheiras da região, colher cacau para fazer chocolates e conhecer comunidades quilombolas. O turismo criativo e de experiência ganha força e substitui o turismo “instagramável” pela construção de memórias afetivas que conectam o visitante à essência da Bahia.
Capoeira como porta de entrada para a cultura baiana
Mestre Bamba, conhecido por seu trabalho na Associação de Capoeira Mestre Bimba (ACMB), percebe essa transformação há bastante tempo. Para ele, os turistas não querem apenas observar a capoeira, mas vivê-la. “Eles buscam entender a história, saber quem foram os mestres como Mestre Bimba, Mestre Vermelho 27 e Mestre Vermelho Boxel. Querem tocar berimbau ou atabaque, participar de rodas e experimentar o samba”, explica. A capoeira, para esses visitantes, revela-se muito mais do que um esporte: é música, resistência, história e comunidade. Muitos chegam curiosos e saem emocionados, e alguns mantêm a prática mesmo depois de voltarem para seus países.
A ACMB, fundada em 1975 pelo Mestre Vermelho, mantém viva a tradição da Capoeira Regional iniciada por Mestre Bimba. Com mais de 40 núcleos espalhados pelo mundo, a associação representa uma das maiores referências para quem deseja aprender a capoeira com raízes autênticas baianas.
Turismo cultural e intercâmbio de experiências
Ingride Banzo, professora de capoeira, samba e dança afro-brasileira, criou em 2022 o projeto Experience Cultural Exchange, que reúne turistas interessados em conhecer a cultura afro-baiana de forma profunda. Com grupos que se reúnem em Salvador e no Rio de Janeiro, os participantes têm aulas práticas, conhecem a culinária local, visitam espaços culturais e convivem com mestres e artistas da região. Para Ingride, não se trata de turismo convencional, mas de uma verdadeira imersão cultural.
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Além de proporcionar aprendizado, o projeto gera impacto econômico positivo para as comunidades locais, colaborando com músicos, professores e pequenos empreendedores que mantêm a cultura viva. Este ano, duas turmas chegam a Salvador, em agosto e novembro, todas motivadas pelo desejo de vivenciar a Bahia além dos cartões-postais, com respeito e troca cultural.
Afroturismo e narrativas de resistência
Sayuri Koshima, à frente da empresa Like a Sotero, atua no turismo afrocentrado há 15 anos, destacando a história negra baiana em roteiros que passam pelo Centro Histórico de Salvador. Seu “walking tour afrocentrado” é um dos passeios mais procurados pelos visitantes, que descobrem locais importantes da história negra e provam pratos típicos como o acarajé, símbolo vivo dessa trajetória.
Sayuri, que vem de um quilombo afro-indígena na Ilha de Itaparica, oferece uma narrativa antirracista e decolonial, ajudando os turistas a compreenderem as conexões históricas entre os espaços visitados e a ancestralidade do povo baiano. Ela relata que, muitas vezes, a emoção toma conta dos visitantes ao entenderem o verdadeiro significado de locais como o Pelourinho, antes um espaço de castigos para corpos escravizados.
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Turismo religioso e comunitário em Salvador
O turismo religioso na Bahia ganha força com roteiros que envolvem igrejas, mosteiros e a comunidade dos Alagados, especialmente entre visitantes internacionais. Hilda Almeida dos Santos, CEO da Mambré Agência de Turismo Religioso Comunitário, destaca que esses turistas buscam experiências autênticas e transformadoras. Eles são convidados a conhecer a história de resistência da comunidade, a presença social da igreja católica e a vivência da fé como serviço.
Um momento marcante é a entrada descalça na Igreja dos Alagados, gesto que convida à reflexão sobre a realidade dos moradores que enfrentaram anos de vida em palafitas sobre lama. Esse contato direto gera respeito, humildade e solidariedade, transformando turistas em peregrinos da esperança.
Além do aspecto religioso, o roteiro inclui visitas a projetos sociais, à cultura local, ao manguezal e à culinária, mostrando que os Alagados são uma comunidade repleta de fé, solidariedade e capacidade de superação, apesar dos desafios sociais que enfrenta.

