Medidas contra Apostas com Recursos Públicos
A Bahia está em processo de implementação de uma nova legislação que pretende proibir beneficiários de programas sociais de utilizarem os recursos financeiros recebidos em apostas de quota fixa e jogos de azar online. Essa iniciativa surge em um contexto preocupante, onde a demanda por tratamento de ludopatia na rede psicossocial do estado aumentou significativamente entre 2023 e 2024. Além disso, a Bahia se destaca como o quarto estado do Brasil com o maior número de apostadores online, contabilizando cerca de 1,5 milhão de usuários ativos nos últimos 30 dias.
Dados do Banco Central revelam que, apenas em agosto de 2024, beneficiários de programas sociais federais transferiram aproximadamente R$ 3 bilhões para empresas de apostas usando o sistema Pix. O cenário é alarmante e motivou a criação do Projeto de Lei 26.188/2026, que busca estabelecer regras mais rigorosas para a utilização dos recursos sociais.
Detalhes do Projeto de Lei
O Projeto de Lei abrange uma série de programas de transferência de renda e benefícios sociais estaduais, incluindo:
- Bolsa Presença;
- Primeiro Emprego;
- Auxílios emergenciais estaduais;
- Benefícios eventuais de assistência social;
- Outros programas de complementação de renda da administração pública direta ou indireta.
A proposta inclui um controle mais rigoroso sobre como esses recursos são utilizados. Isso será viabilizado pela criação de um banco de dados que armazena informações sobre os beneficiários, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O projeto também prevê a assinatura de convênios com o Ministério da Fazenda, visando integrar a base estadual ao Sistema de Gestão de Apostas (Sigap) do governo federal.
Além disso, as empresas de apostas que atuam na Bahia serão obrigadas a consultar esse banco de dados antes de aceitarem apostas feitas por beneficiários de programas sociais, uma medida que busca restringir o acesso a esses recursos por pessoas potencialmente vulneráveis.
Consequências para as Operadoras de Apostas
Conforme estipulado no Projeto de Lei, as operadoras que não cumprirem as novas determinações estarão sujeitas a sanções administrativas que podem variar desde advertências até a cassação de suas licenças e alvarás de funcionamento no estado. As multas impostas podem variar entre R$ 1 mil e R$ 50 mil, podendo chegar a até R$ 500 mil em casos de reincidência.
Ações de Apoio e Prevenção
O projeto, no entanto, não se limita ao aspecto punitivo. Há uma preocupação evidente com a assistência social, com ações voltadas para o atendimento de pessoas viciadas em apostas. Entre as iniciativas propostas estão:
- Atendimento humanizado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para dependentes de jogos;
- Capacitação de profissionais da saúde e da educação para identificação precoce de casos de ludopatia;
- Realização de campanhas educativas permanentes sobre os riscos do superendividamento.
O deputado estadual Fabrício Falcão (PCdoB), autor da proposta, destacou que “a iniciativa visa proteger os cidadãos baianos mais vulneráveis, garantindo que recursos públicos destinados à subsistência não alimentem o ciclo do vício e do endividamento, em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).” Essa abordagem reflete uma tentativa de promover não apenas a prevenção, mas também a reabilitação dos afetados pela ludopatia.
A Ludopatia e Seus Efeitos
A ludopatia, também conhecida como jogo patológico, é caracterizada pela compulsão por jogos de azar e é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental grave. O reconhecimento desse problema é crucial, principalmente em um momento em que os serviços de saúde pública buscam formas de atender a essa demanda crescente. A nova proposta legislativa busca, assim, não apenas coibir o uso inadequado de recursos sociais, mas também oferecer suporte aos que lutam contra essa dependência.

