Lençóis entra no cenário internacional do turismo sustentável
Na quinta-feira, 2 de julho de 2026, Lençóis, na Bahia, foi oficialmente incluída entre os sete destinos brasileiros escolhidos pelo Ministério do Turismo para competir pelo selo “Melhores Vilas Turísticas do Mundo”. Essa iniciativa da Organização das Nações Unidas para o Turismo (ONU Turismo) reconhece localidades que equilibram patrimônio cultural, natureza preservada, sustentabilidade e desenvolvimento local. Como porta de entrada para a Chapada Diamantina, Lençóis concorre com vilas de diferentes continentes e busca ampliar sua projeção no turismo internacional. O resultado dessa disputa será divulgado em dezembro, durante evento em Buenos Aires, Argentina.
Critérios e concorrentes brasileiros
A seleção nacional que garantiu a participação de Lençóis reuniu dez inscrições, avaliando municípios com até 15 mil habitantes, vinculados a paisagens tradicionais associadas a atividades como agricultura, silvicultura, pecuária ou pesca. Outro critério importante foi a manutenção dos valores comunitários e dos modos de vida locais. Além de Lençóis, o Brasil está representado por Araçá, em Porto Belo (SC); Conceição de Ibitipoca, em Lima Duarte (MG); Delfinópolis (MG); Holambra (SP); São José do Barreiro (SP); e Vila Flores (RS). Essas vilas brasileiras competem com outras 261 localidades ao redor do mundo.
Patrimônio histórico e cultural sustentam candidatura baiana
Distante cerca de 418 quilômetros de Salvador, Lençóis reúne características diretamente alinhadas aos critérios da ONU Turismo. A cidade é conhecida pelo seu centro histórico, que preserva a arquitetura colonial ligada ao ciclo da mineração de diamantes, além de desempenhar papel estratégico na formação econômica, social e cultural da Chapada Diamantina. O Centro Histórico, protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mantém a configuração típica dos núcleos mineradores dos séculos XVIII e XIX, com ruas irregulares, ladeiras, largos, praças e casarões remanescentes do período de prosperidade da mineração. Segundo o Iphan, o povoamento local começou em 1845, após a descoberta das minas de diamantes, consolidando a cidade como importante entreposto regional.
Essa herança histórica permanece viva nas manifestações culturais da região. A Festa de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos de Lençóis, ligada à memória garimpeira e à religiosidade popular, foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2026. A celebração, que ocorre há mais de 150 anos, envolve devoção, cortejos, manifestações culturais e tradições comunitárias.
Riquezas naturais e arqueológicas ampliam relevância do destino
A candidatura de Lençóis também se apoia na força ambiental da Chapada Diamantina, região marcada por cachoeiras, cavernas, vales, serras, rios e trilhas que estruturam a oferta de ecoturismo e turismo de aventura. O Parque Nacional da Chapada Diamantina, criado em 1985, protege ecossistemas da Serra do Sincorá e abrange municípios como Lençóis, Mucugê, Palmeiras, Andaraí, Ibicoara e Itaetê, sendo fundamental para a preservação ambiental e o suporte à atividade turística local.
Além disso, a rede de patrimônios locais inclui o Complexo Arqueológico Serra das Paridas, com registros de arte rupestre e pinturas pré-históricas; o Território Quilombola do Remanso, que preserva saberes e tradições afro-brasileiras; a Área de Proteção Ambiental Marimbus-Iraquara, conhecida como “Pantanal da Chapada Diamantina”; e o Parque Natural Municipal da Muritiba, responsável pela proteção da bacia do Rio Lençóis e de atrativos como o Serrano, o Salão de Areias Coloridas e a Cachoeira da Primavera.
Turismo comunitário e impacto econômico local
O desempenho turístico de Lençóis reforça a força econômica da candidatura. Em 2025, o município recebeu 320 mil turistas, número expressivo para uma cidade de pequeno porte que depende da preservação ambiental e cultural para manter sua atratividade. O turismo local envolve guias, pousadas, restaurantes, artesãos, condutores de visitantes, empreendedores comunitários e prestadores de serviços, criando uma cadeia produtiva significativa.
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Esse reconhecimento internacional pode ampliar a visibilidade do destino, atrair novos visitantes e fortalecer políticas públicas de ordenamento turístico. Entretanto, o crescimento do setor exige planejamento, controle dos impactos ambientais, qualificação profissional e mecanismos para garantir a distribuição justa de renda. A ONU Turismo valoriza destinos que demonstram que o turismo vai além do consumo da paisagem, contribuindo para a manutenção das comunidades, proteção do patrimônio cultural e conservação dos ecossistemas.
Projeto Geoparque Serra do Sincorá impulsiona projeção internacional
Outro elemento importante na candidatura de Lençóis é o Projeto Geoparque Serra do Sincorá, que busca o reconhecimento como Geoparque Mundial da Unesco. A iniciativa envolve os municípios de Andaraí, Lençóis, Mucugê e Palmeiras, com o objetivo de preparar comunidades e instituições para a candidatura internacional. O projeto destaca a relevância geológica da região, marcada por formações ligadas à longa história natural da Chapada Diamantina.
A eventual chancela da Unesco, somada ao selo da ONU Turismo, poderá fortalecer ainda mais a projeção internacional de Lençóis e da Serra do Sincorá. No entanto, esse processo depende de articulação institucional, comprovação técnica, governança territorial e capacidade de integrar ciência, conservação, educação patrimonial e turismo sustentável. A continuidade administrativa e o compromisso público de longo prazo são essenciais para transformar esse potencial em reconhecimento permanente.
Brasil amplia presença na rede mundial de vilas turísticas
Até o momento, 27 vilas brasileiras foram indicadas para o selo da ONU Turismo, incluindo a edição atual. Duas delas já receberam reconhecimento internacional: Testo Alto, em Pomerode (SC), conhecida pela Rota do Enxaimel, e Antônio Prado (RS), referência na preservação da herança da imigração italiana.
Esses exemplos destacam o tipo de patrimônio valorizado pela iniciativa: identidade local, continuidade histórica, práticas comunitárias e gestão sustentável. Lençóis diferencia-se pela combinação única de mineração histórica, cultura garimpeira, patrimônio religioso, ecoturismo, comunidades tradicionais, arqueologia, biodiversidade e geodiversidade. Raramente um destino brasileiro reúne, em um espaço tão concentrado, ativos culturais e naturais com tanto potencial para reconhecimento global.
Outros representantes brasileiros na competição
Além de Lençóis, outras vilas brasileiras participam da disputa:
Araçá, em Porto Belo (SC): Com pouco mais de 1.100 habitantes, a Vila do Araçá combina natureza preservada e tradições comunitárias no litoral catarinense, mantendo ligação com pesca artesanal, gastronomia de frutos do mar e turismo ligado ao ambiente costeiro.
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Conceição de Ibitipoca, em Lima Duarte (MG): Situada na Serra da Mantiqueira, preserva patrimônio histórico ligado aos caminhos do ciclo do ouro, com forte vocação para ecoturismo, trilhas, cachoeiras e grutas.
Delfinópolis (MG): Na Serra da Canastra, destaca-se pela natureza, cultura rural e produção tradicional, com atrações como cachoeiras, trilhas, Queijo Minas Artesanal e Café da Canastra.
Holambra (SP): Conhecida como Capital Nacional das Flores, mantém traços da imigração holandesa em arquitetura, gastronomia e cultura, sendo referência na produção de flores.
Vila Flores (RS): Na Serra Gaúcha, alia turismo rural, gastronomia típica, paisagens preservadas da Mata Atlântica e tradições comunitárias, com destaque para o Filó Italiano.
São José do Barreiro (SP): No Vale do Paraíba, combina natureza e patrimônio histórico, preservando fazendas e construções do ciclo do café, além de trilhas, cachoeiras e gastronomia artesanal.
Desafios para o reconhecimento internacional
O reconhecimento pelo selo “Melhores Vilas Turísticas do Mundo” exige não apenas uma rica oferta cultural e natural, mas também governança eficiente, preservação contínua e articulação entre comunidades e poder público. Para Lençóis, o desafio é manter o equilíbrio entre crescimento turístico e conservação ambiental, garantindo que o turismo seja um instrumento de desenvolvimento sustentável e fortalecimento das comunidades locais.

