Imersão na Cultura Popular e na Espiritualidade das Ruas
Luiz Antonio Simas, reconhecido autor do “Dicionário da História do samba” e outras obras importantes, ainda é uma figura relativamente pouco explorada no panorama cultural baiano. Apesar de carioca, seu trabalho dialoga profundamente com temas que tocam a Bahia, como o samba, a umbanda, o Carnaval e a cultura das ruas. Simas, que é professor e historiador, traz em seus escritos uma linguagem que transita entre a crítica e a poesia, remetendo a nomes como João do Rio e Charles Baudelaire, enquanto reflete sobre o Rio de Janeiro como um espelho da sociedade brasileira.
Crônicas que Retratam o Pulsar da Cultura Popular Carioca
Dentre suas publicações recentes, “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras”, lançados em 2025 pela Editora Civilização Brasileira sob o selo José Olympio, se destacam por abordar a cultura popular, a umbanda, o samba e a figura de Exu como símbolos e caminhos que conectam o Rio de Janeiro a Salvador em uma narrativa cultural rica e multifacetada.
As crônicas revelam um olhar atento às nuances da cultura urbana — dos batuques aos terreiros, dos bares às quadras de escolas de samba —, mostrando o ritmo e as transformações das comunidades negras cariocas. Em um dos textos, “A Casa da Tia Ciata”, Simas resgata a memória de Hilária Batista de Almeida, que transformou sua casa em um ponto central para músicos e compositores, base fundamental para o surgimento do samba carioca.
Transformações Urbanas e o Espaço das Instituições Populares
Simas também tece críticas incisivas sobre a transformação do Rio de Janeiro em uma cidade-empresa, especialmente após eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Ele observa a perda do protagonismo das escolas de samba, que historicamente funcionaram como instituições comunitárias essenciais para a construção de laços sociais entre os negros cariocas no pós-abolição. Essa mudança decorre da crescente influência de interesses públicos e privados, que relegaram essas agremiações a um papel secundário na dinâmica urbana.
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Essa reflexão reverbera também em outras cidades brasileiras, como Salvador, onde manifestações culturais tradicionais — como o afoxé, o maracatu e o samba-reggae — enfrentam desafios semelhantes ao serem sobrepostas a expressões mais comercializadas, como os blocos elétricos.
Personagens e Saberes Ancestrais nas Narrativas de Simas
Nas crônicas, Simas destaca personagens populares e figuras emblemáticas do samba e da umbanda, como Tião Casemiro, conhecido como “a voz de ouro da umbanda”, e Jaiminho Alça de Caixão. Ele explora ainda o universo dos pelintras, os malandros que transitam entre o mundo da rua e o espiritual, entrelaçando relatos históricos e culturais que enriquecem a compreensão da cultura popular carioca.
O autor vai além da narrativa, trazendo referências filosóficas que conectam a imagem do “Angelus Novus” de Paul Klee, interpretada por Walter Benjamin, com a figura de Exu, símbolo de caminho e transformação.
O Samba, a História e o Cotidiano nas Ruas do Rio de Janeiro
Em “O Corpo Encantado das Ruas”, Luiz Antonio Simas se mostra mais livre, caminhando pelas ruas do Rio para falar das pessoas, dos costumes e das manifestações culturais. Ele aborda temas do cotidiano, como o jogo do bicho, o futebol, os bares, as crianças e o azeite de dendê — elementos que compõem a vida popular e sua história.
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O cronista também destaca episódios históricos relevantes, como a fundação do arraial no sopé do Pão de Açúcar em 1565 por Estácio de Sá, que buscava combater os tupinambás e interesses franceses. A crônica “Terreiro de São Sebastião, okê” revela o caldeirão cultural e guerreiro das origens do Rio e Niterói, mostrando como a cidade foi construída a partir de encontros e conflitos culturais.
Uma Leitura Essencial para Entender a Cultura das Ruas Brasileiras
Os livros de Luiz Antonio Simas convidam o leitor a mergulhar na diversidade e riqueza das manifestações populares, com um olhar que combina erudição e sensibilidade. Suas crônicas dialogam com a tradição dos grandes cronistas e oferecem um panorama da cultura carioca com ecos que reverberam em outras regiões do país.
Para quem busca compreender as raízes do samba, da umbanda e das vivências urbanas, a obra de Simas se apresenta como uma fonte valiosa que ilumina as ruas e os saberes que circulam nelas. Em um momento de transformações nas cidades e em suas expressões culturais, essa leitura ganha ainda mais relevância para entender as dinâmicas que moldam a cultura brasileira contemporânea.

