A Politização do Turismo na Bahia
A politização do turismo na Bahia, em especial com iniciativas como o “Turismo Ético na Bahia”, representa uma séria ameaça à reputação do estado e ao fluxo de visitantes. Essa retórica, que incita hostilidade contra turistas israelenses, pode gerar um ambiente de xenofobia e racismo, prejudicando a imagem de um dos destinos mais procurados do Brasil. Em tempos em que a hospitalidade é fundamental para a sustentabilidade econômica e social, essa situação se torna alarmante.
Os dados mais recentes mostram que a Bahia recebeu 47% mais turistas estrangeiros em 2025 em comparação com 2024, solidificando-se como um dos principais destinos turísticos do Nordeste. O turismo internacional se tornou um pilar essencial para a economia baiana, e qualquer fator que comprometa essa dinâmica merece atenção.
Eventos que Geram Hostilidade
A realização do evento “Turismo Ético na Bahia”, programado para os próximos dias, é motivo de preocupação. Promovido por líderes que já expressaram sentimentos hostis em relação a israelenses, o evento utiliza a crise humanitária em Gaza como justificativa para discursos que incentivam o repúdio a turistas baseados em sua nacionalidade. Essas atitudes não apenas configuram crimes de xenofobia e anti-semitismo, mas também podem desencadear um efeito cascata que atinge outros grupos de visitantes.
É importante observar que esses mesmos grupos também manifestam apoio ao regime iraniano, que é um dos principais apoiadores do Hamas. Assim, a animosidade política pode se expandir para englobar uma gama mais ampla de turistas estrangeiros, tornando o ambiente ainda mais hostil.
O Impacto nos Turistas Brasileiros e Estrangeiros
Além da hostilidade dirigida a turistas internacionais, a situação pode afetar também turistas brasileiros, especialmente judeus e evangélicos que utilizam símbolos relacionados a Israel. A narrativa de hostilidade que se inicia com um grupo específico tende a se expandir, resultando em danos à reputação dos destinos turísticos e impactando todos os visitantes.
Estudos acadêmicos demonstram que a hostilidade direcionada a um determinado grupo nacional não afeta apenas os visados. O impacto é sentido em toda a atratividade do destino turístico. Revistas como o Journal of Destination Marketing & Management e pesquisas realizadas pela London School of Economics evidenciam que conflitos sociais, violações de direitos humanos e, em casos extremos, ataques terroristas, minam o fluxo turístico e deterioram a imagem de um local, reduzindo a intenção de visita, mesmo entre aqueles que não são diretamente alvo da hostilidade.
A Reputação em Jogo
Esse fenômeno é conhecido como contágio reputacional e, no setor de turismo, é frequentemente referido como efeito memória. Situações de hostilidade podem permanecer na percepção dos viajantes por anos, influenciando decisões futuras de viagem. Assim, estimular hostilidades com base na nacionalidade não é apenas uma questão moral. É uma estratégia autodestrutiva do ponto de vista econômico.
O conceito de turismo responsável é amplamente reconhecido e se baseia na promoção do diálogo intercultural. Transformar destinos turísticos em palcos de hostilidade identitária é uma violação dessa premissa, colocando em risco a reputação internacional de localidades que se destacaram pela hospitalidade e convivência pacífica.
Manter ambientes turísticos seguros é um imperativo ético, jurídico, e acima de tudo, um elemento vital para a sustentabilidade econômica e social das regiões que dependem do turismo.
Clarita Costa Maia, consultora legislativa do Senado, é presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB-DF.

