Da caça ao turismo: a mudança radical na costa baiana
O litoral da Bahia, que outrora assistia à morte brutal das baleias-jubarte diante de olhos curiosos, hoje é palco de um espetáculo natural que encanta milhares de visitantes. As mesmas águas onde as jubartes eram caçadas agora recebem turistas ávidos para observar esses gigantes marinhos em seu habitat, celebrando a vida e a conservação.
Do arpão à pesquisa científica
Em um passado não tão distante, a caça às baleias era uma atividade cruel e comum na costa brasileira. Sérgio Cipollotti, coordenador do Projeto Baleia Jubarte, relembra que hoje utiliza um equipamento semelhante a um arpão, mas com um propósito totalmente diferente: coletar amostras para pesquisas. Ao disparar uma flecha com ponta oca que perfura levemente a pele da jubarte, ele contribui para o monitoramento genético e a preservação da espécie, uma mudança de paradigma que reflete o avanço da consciência ambiental.
Contrastando com os tempos sombrios dos anos 80, quando arpões e lanças eram usados para caçar as baleias, a situação atual é marcada pela proteção e estudo desses cetáceos. Naquela época, os filhotes eram vítimas diretas da caça, usados como isca para atrair as mães, que acabavam presas em uma caçada exaustiva e violenta. Hoje, o cenário é outro: a jubarte é celebrada e preservada.
Histórico da caça e o impacto na economia local
A caça às baleias na Bahia teve início no século XVII, com a instalação da primeira armação na Ilha de Itaparica. O óleo extraído desses animais era essencial para a iluminação pública e outras utilidades, o que incentivou a exploração intensiva. Empresários com licenças monopolizavam a atividade, que gerava renda e contribuía para obras históricas na região. No entanto, essa riqueza teve um custo alto para a biodiversidade e para o equilíbrio ambiental.
Relatos de épocas passadas descrevem um cenário mórbido, com ossos de baleias espalhados pelas praias e até vendidos como souvenirs. A carne, apesar de pouco valorizada, servia como alimento para populações mais pobres. A caça desenfreada levou a uma drástica redução da população das jubartes, que quase desapareceram das costas brasileiras.
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O fim da caça e o surgimento da conservação
A proibição da caça às baleias no Brasil, formalizada pela Lei nº 7.643/87, marcou o início de uma nova era. Entretanto, quando a proteção legal entrou em vigor, as jubartes já estavam em risco de extinção, com populações reduzidas a poucos exemplares. Foi nesse contexto que surgiu o Projeto Baleia Jubarte, um símbolo de esperança e recuperação da espécie na Bahia.
O projeto, fundado em 1988 e desenvolvido em parceria com a Petrobras a partir de 1996, transformou a Praia do Forte em um dos principais centros de pesquisa e turismo sustentável do país. A iniciativa não só contribuiu para o aumento da população de jubartes, que hoje ultrapassa 35 mil indivíduos, como também democratizou o acesso à observação desses animais, antes restrita a pesquisadores.
Turismo sustentável e educação ambiental
O Projeto Baleia Jubarte promove, além da pesquisa, ações de capacitação e educação ambiental para a comunidade local. O Programa de Jovens Monitores, por exemplo, já formou dezenas de estudantes que hoje colaboram com a conservação e o turismo sustentável na região. Essa integração entre ciência, sociedade e turismo gera emprego e renda, garantindo a sustentabilidade do projeto e beneficiando a população.
Durante os passeios de observação, os visitantes têm a oportunidade única de vivenciar a exuberância das jubartes, com seus saltos, cantos e interações no mar, acompanhados por pesquisadores que explicam cada detalhe. A experiência reforça a importância da preservação e resgata a relação harmoniosa entre homem e natureza que a Bahia busca consolidar.
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Expansão e futuro da conservação na Bahia
Em 2026, o Projeto Baleia Jubarte planeja ampliar suas pesquisas para o litoral entre Boipeba e a divisa com Sergipe, utilizando técnicas avançadas de fotoidentificação para monitorar a ocupação das jubartes na costa baiana. O banco de dados do projeto já conta com mais de 10 mil fotografias, que ajudam a entender os movimentos e hábitos desses mamíferos.
Essa expansão reforça o compromisso da Bahia com a conservação marinha e o turismo responsável, consolidando a região como referência nacional e internacional. O que antes foi um mar de sangue tornou-se um paraíso para as jubartes e para quem deseja conhecê-las de perto, em uma experiência que une ciência, história e natureza.
Da tragédia à esperança: a transformação da Bahia
A trajetória da Bahia na relação com as baleias-jubarte é um exemplo de superação. De um passado marcado pela caça brutal, a região evoluiu para se tornar um polo de turismo sustentável e conservação ambiental. O Projeto Baleia Jubarte, com suas pesquisas e ações comunitárias, é a prova concreta de que é possível reverter danos ambientais e construir um futuro onde a natureza e as pessoas coexistem em harmonia.
Hoje, a Bahia convida turistas e moradores a testemunharem essa transformação, oferecendo um espetáculo natural que emociona e educa. A observação das jubartes é mais do que um passeio turístico: é um compromisso com a vida e com o legado que queremos deixar para as próximas gerações.

