O que significa ser um acumulador?
Valmir Rosário, jornalista, radialista e advogado, compartilha uma reflexão pessoal sobre o hábito de acumular objetos, um comportamento que, muitas vezes, ultrapassa a simples organização e adentra o território do apego e da resistência ao desapego. Sem pretensão científica, sua análise parte do olhar cotidiano, com um tom leve e atento às nuances culturais que envolvem esse fenômeno.
O ato de acumular pode ser visto de várias formas: há quem guarde objetos por valor sentimental, outros por medo de perder algo importante, e ainda aqueles que mantêm coleções por puro gosto ou até status. Rosário lembra das grandes bibliotecas de famílias abastadas, espaços repletos de livros raros, que muitas vezes permaneciam intocados, meros ornamentos. Essas coleções, embora valiosas, não serviam para consulta e acabavam se tornando “elefantes brancos” – peças que simbolizam mais o passado do que a utilidade atual.
Acúmulo e cultura: entre o útil e o inútil
Essas coleções, muitas vezes, são acumuladas por pessoas que, mesmo sem usá-las, as mantêm como se fossem parte de sua identidade, criando um vínculo que, para outros, pode parecer exagerado ou até problemático. Rosário destaca que, para ele, a leitura sempre foi um prazer e uma prática constante, o que o levou a doar mais de 12 mil livros para bibliotecas comunitárias, garantindo que essas obras mantivessem sua função social e cultural.
O contraste entre o acumulador que apenas guarda e aquele que compartilha é fundamental para entender as implicações culturais do acúmulo. O ato de doar, de permitir que os objetos circulem, contribui para a vitalidade cultural e para o acesso do público a saberes e histórias. Já o acúmulo exacerbado, quando sem controle, pode representar um transtorno que ultrapassa o campo cultural e atinge a saúde mental, especialmente em pessoas na chamada “melhor idade”.
Quando o acúmulo vira transtorno
Notícias sobre incêndios em residências de acumuladores trazem à tona uma realidade preocupante: o acúmulo descontrolado pode ser um sintoma de transtornos psicológicos, incluindo ansiedade e compulsão. A sociedade, muitas vezes, classifica esses indivíduos com adjetivos que vão do carinhoso ao pejorativo, sem entender as complexidades que cercam esse comportamento.
Rosário alerta para a importância de observar esses sinais sem julgamentos simplistas, considerando que o acúmulo pode ser um reflexo de questões mais profundas. No contexto cultural, esse fenômeno revela como o valor dado aos objetos está atrelado a memórias, identidades e até medos, e por isso merece uma análise sensível e contextualizada.
Em resumo, o acúmulo, seja de livros, objetos ou bens materiais, dialoga com a história pessoal e coletiva, e sua compreensão passa pela cultura, saúde e circulação do conhecimento. Para o leitor interessado em cultura, essa reflexão abre espaço para pensar como lidamos com o passado, o presente e o que escolhemos preservar ou deixar ir.

