O Surgimento da Doutrina Monroe e seu Contexto Histórico
Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe foi inicialmente criada como uma defesa contra a tentativa de recolonização europeia nas Américas. Com a nova gestão de Donald Trump na Casa Branca, que marca seu segundo mandato não consecutivo, esse princípio voltou a ser um tema central na política externa dos Estados Unidos. Ao longo de dois séculos, a doutrina passou de uma simples declaração diplomática a um alicerce da hegemonia norte-americana, sendo usada para justificar intervenções em países da América Latina e a contenção ideológica durante a Guerra Fria. Mais recentemente, ganhou nova vida como uma estratégia explícita de enfrentamento à crescente influência de potências como China, Rússia e Irã na região, em um cenário global caracterizado pela multipolaridade e pelo enfraquecimento do multilateralismo.
A Doutrina Monroe: Contexto Geopolítico do Século XIX
A Doutrina Monroe foi anunciada em um momento de reestruturação do sistema internacional, mais precisamente em 2 de dezembro de 1823. As guerras napoleônicas haviam debilitado as potências europeias, enquanto a América Latina se encontrava em meio a um ciclo de independências que questionava o antigo domínio colonial ibérico. Temendo a possibilidade da restauração colonial por parte da Santa Aliança, os Estados Unidos buscaram afirmar uma posição política clara contra novas intervenções europeias no hemisfério ocidental. Embora frequentemente apresentada como uma manifestação de soberania, essa doutrina foi elaborada em um contexto de aliança estratégica com o Reino Unido, cuja marinha assegurava, de fato, o equilíbrio de forças necessário para sustentar a declaração norte-americana.
Princípios Fundamentais da Doutrina Monroe
Os pilares da Doutrina Monroe são dois princípios que moldaram a política hemisférica dos Estados Unidos. O primeiro é o princípio da não-colonização, que estabelece que o continente americano não estaria mais aberto à expansão territorial europeia. Esse enunciado simbolizava uma ruptura com séculos de domínio colonial, afirmando uma nova ordem regional. O segundo princípio é o da não-intervenção recíproca, que estipulava que os Estados Unidos não interfeririam nos assuntos internos europeus, desde que as potências europeias não interviessem nas Américas. Inicialmente, a doutrina não permitia intervenções dos EUA na América Latina, algo que se consolidaria apenas com o fortalecimento do poder norte-americano nas décadas seguintes.
Transformação da Doutrina: De Defesa a Instrumento de Hegemonia
No decorrer do século XIX e início do XX, o crescimento econômico e militar dos Estados Unidos transformou a Doutrina Monroe, uma vez defensiva, em uma ferramenta de ação. Um marco significativo foi o Corolário Roosevelt, em 1904, que reinterpretou a doutrina, legitimando intervenções norte-americanas em países latino-americanos para impedir instabilidade política ou influência externa. Essa nova interpretação rompeu com o princípio original de não-intervenção e institucionalizou uma lógica de tutela regional, que dominou as relações interamericanas por décadas.
A Doutrina Monroe Durante a Guerra Fria
Durante a Guerra Fria, a Doutrina Monroe foi integrada na estratégia global de contenção do comunismo. Golpes de Estado e apoio a regimes autoritários eram justificados sob a premissa de evitar a expansão da influência soviética no hemisfério ocidental. Essa época consolidou a percepção da doutrina como símbolo de intervencionismo e imperialismo informal na América Latina, aprofundando a assimetria nas relações com Washington e alimentando desconfiança, que ainda perdura.
Donald Trump e a Reabilitação da Doutrina Monroe
No seu primeiro mandato, de 2017 a 2021, Donald Trump trouxe à tona a Doutrina Monroe como uma referência explícita na política externa dos EUA para a América Latina. Ao contrário de administrações anteriores que tratavam essa lógica de forma implícita, o governo Trump adotou uma abordagem direta e confrontacional. Autoridades do governo afirmaram que os Estados Unidos não tolerariam a expansão da influência de países como China, Rússia e Irã na região. Essa postura se traduziu em sanções econômicas severas, isolamento diplomático de governos hostis e uma política comercial protecionista.
A Doutrina Monroe no Novo Mandato de Trump (2025–2029)
Com o retorno de Donald Trump à presidência em 20 de janeiro de 2025, sua nova gestão traz de volta a centralidade da Doutrina Monroe. Embora não seja exposta como uma declaração formal, a doutrina funciona como um princípio orientador da ação estratégica do governo. A ênfase está na contenção da presença de potências fora do hemisfério na América Latina e no Caribe, consideradas vitais para a segurança nacional dos EUA. Essa reinterpretação se concretiza por meio de sanções, tarifas e condicionamento de acordos estratégicos, reafirmando a lógica da Doutrina Monroe: o hemisfério ocidental como esfera de influência prioritária de Washington.
Lições Históricas e Limites da Estratégia Atual
Historicamente, Donald Trump não criou uma nova Doutrina Monroe; na verdade, ele retirou o véu retórico que outras administrações haviam colocado sobre práticas de poder tradicionais. A principal diferença é a forma: uma política externa direta e assertiva, avessa ao multilateralismo, que revela a dificuldade dos Estados Unidos em se adaptar às novas relações de poder globais. À medida que o mundo se torna cada vez mais multipolar, essa postura pode intensificar tensões em vez de promover estabilidade.
A Doutrina Monroe: Um Elemento Estruturante da Política Externa dos EUA
A Doutrina Monroe continua a ser um elemento crucial na política externa dos Estados Unidos, reinterpretada conforme as circunstâncias históricas e os interesses estratégicos de Washington. O ressurgimento da doutrina durante os mandatos de Donald Trump ressalta a persistência de uma tradição diplomática que defende a primazia regional norte-americana. Entretanto, sua aplicação seletiva e unilateral em um cenário global multipolar pode acentuar tensões, ao invés de contribuir para a estabilidade. No final, a Doutrina Monroe reflete não apenas o século XIX, mas a continuidade de uma visão estratégica que resiste a reconhecer as transformações do sistema internacional no século XXI.

