Casas Bahia enfrenta maior crise financeira da história com passivo bilionário
As Casas Bahia deram um passo crítico ao protocolar pedido de recuperação judicial em 17 de agosto, revelando um passivo de R$ 17,3 bilhões e cerca de 28 mil credores. O valor, expressivo por si só, ganha ainda mais relevância ao considerar a reincidência: em 2024, o grupo já havia reestruturado R$ 4,1 bilhões por meio de recuperação extrajudicial. Dois anos depois, o passivo quadruplicou, mostrando que a empresa atravessa sua pior crise desde a fundação, nos anos 1950.
Alta dos juros e efeito cascata na economia real
Esse cenário não é isolado. O Indicador da Serasa Experian apontou 977 processos de recuperação judicial em 2025, o maior número desde 2016, envolvendo 2.466 CNPJs — outro recorde histórico. Em janeiro do mesmo ano, 8,7 milhões de empresas estavam negativadas. A comparação com 2016, ano de recessão, deixa claro um fenômeno: hoje, mesmo sem recessão, mais empresas recorrem à reestruturação financeira.
O fator determinante é o custo do dinheiro. A Selic terminou 2025 em 15% ao ano e, mesmo após quatro cortes consecutivos, ficou em 14%, índice considerado pelo Banco Central como restritivo. Empresas que carregaram dívidas desde 2021 chegam a 2026 com passivos caros e margens apertadas.
Os juros altos pressionam o capital de giro, a manutenção de estoques e as operações de antecipação junto a fornecedores — uma prática comum no varejo nacional, onde o risco sacado virou peça central do capital de giro.
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Renda familiar em queda e desafio para o varejo
Paralelamente, a inflação corrói a renda das famílias, reduzindo o consumo no momento em que as receitas precisariam crescer para suportar o serviço da dívida. As Casas Bahia ilustram essa dinâmica: dependem do crediário, que representa cerca de 16% das vendas e possui carteira de R$ 6,3 bilhões. Ao financiar o próprio cliente, a empresa assume um papel quase bancário, captando recursos caros para emprestar parcelado.
Com a Selic em alta, o spread desaparece dos dois lados, e a concorrência das plataformas internacionais agrava a situação. O resultado é um varejo que mantém vendas, mas não gera caixa suficiente para sustentar sua estrutura financeira.
Impacto da recuperação judicial na cadeia produtiva
Do ponto de vista jurídico, o passivo é composto majoritariamente por créditos quirografários, cerca de R$ 16,4 bilhões, concentrados em fornecedores como Samsung, Electrolux, Whirlpool, LG e Motorola, e não em bancos. Essa característica amplia o impacto da crise, que não se resolve apenas com acordos entre credores financeiros, mas se espalha por toda a cadeia produtiva, afetando empresas que não participaram da decisão de alavancagem.
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A recuperação extrajudicial de 2024 tratou parte da dívida financeira, mas não ajustou margens nem a estrutura de capital, fazendo com que o adiamento cobrasse juros altos.
Alternativas legais para prevenir crises mais graves
A legislação brasileira oferece ferramentas preventivas pouco exploradas, como a recuperação extrajudicial, a mediação antecedente e a tutela cautelar do artigo 20-B, §1º, da Lei 11.101/2005. Esses instrumentos possibilitam suspender execuções por até 60 dias para negociar, evitando os custos reputacionais e operacionais de processos judiciais mais complexos.
O desafio atual é diagnosticar a crise quando ainda é de liquidez, não de solvência. Juros elevados não quebram empresas por si só, mas destroem aquelas que resistem em reconhecer que um modelo de financiamento pensado para juros baixos não funciona diante da realidade atual de 14% ao ano.

