Rede de Mulheres Negras no Sul da Bahia Fortalece Resistência Cultural
No sul da Bahia, uma rede formada por mulheres negras, lideranças indígenas, matriarcas de terreiro, educadoras e pesquisadoras está se organizando para resistir ao avanço de agendas conservadoras e do fundamentalismo religioso na região. Com o intuito de preservar a cultura e a identidade afro-indígena, essas mulheres unem forças em um território marcado por tensões democráticas e disputas sociais, especialmente em áreas como Itacaré, Ubaitaba, Olivença e Ilhéus.
Desafios e Ações Coletivas
O sul da Bahia, com suas matas e águas quentes, é frequentemente visto como um paraíso turístico. No entanto, por trás dessa imagem, há um cenário de exploração e especulação imobiliária que afeta diretamente as comunidades locais. As mulheres envolvidas nessa rede enfrentam um movimento político que tenta silenciar vozes divergentes e promover uma homogeneização cultural, representada pelo racismo e pela intolerância religiosa.
Entre as lideranças dessa rede, destaca-se Adriana Souza dos Santos, conhecida como Adriana Apoena Inaiê, presidente da Associação dos Machadeiros de Olivença. Adriana é uma das responsáveis pela organização anual da Festa da Puxada do Mastro de São Sebastião, um ritual que se tornou um símbolo de resistência cultural em meio às ameaças de especulação imobiliária e extração ilegal de areia na região.
Leia também: Ação na Bahia Fortalece a Arte e Cultura na Educação Integral
Leia também: Baianas de Acarajé: Patrimônio Cultural e Economia Verde na Bahia
Educação Antirracista e Preservação Cultural
Aline Areia Almeida Mimoso, educadora com 23 anos de atuação na rede pública, também se destaca por sua luta em promover a educação antirracista e laica, utilizando as leis 10.639/03 e 11.645/08 como ferramentas para a inclusão e valorização da cultura afro-brasileira nas escolas. Essa abordagem visa fortalecer a identidade cultural entre os estudantes e combater o conservadorismo que permeia o ambiente educacional.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 80,7% da população da Bahia se declara preta ou parda, e o censo de 2022 registrou mais de 123,3 mil adeptos de umbanda e candomblé no estado. Esse crescimento expressivo das religiões de matriz africana, por um lado, promove a visibilidade e o reconhecimento cultural, mas, por outro, também atrai a violência de grupos fundamentalistas.
Reconhecimento e Impacto Cultural
Recentemente, a luta dessas mulheres e suas ações coletivas resultaram na aprovação da lei 466/2024, que reconhece as religiões de matriz africana como patrimônio imaterial de Itacaré. Essa conquista representa uma nova etapa para o fortalecimento da preservação cultural e ambiental, além de ampliar a educação antirracista na região.
Leia também: Ilê Aiyê: A Beleza da Resistência Cultural
Leia também: Bahia Comemora 18 Anos da Rede de Laboratórios de Saúde Pública com Encontro Estratégico
As iniciativas dessas mulheres não apenas promovem a resistência cultural, mas também fortalecem a luta contra o conservadorismo e o fundamentalismo religioso, criando um espaço seguro para a expressão de suas identidades. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Sepromi) e o Ministério da Igualdade Racial (MIR) têm um papel importante na valorização dessas ações, apoiando a preservação da cultura afro-brasileira e a educação inclusiva nas escolas, em parceria com instituições como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Conclusão
O fortalecimento dessa rede de mulheres no sul da Bahia é um exemplo claro de como a mobilização comunitária pode resistir a pressões externas e promover a valorização da educação e da cultura afro-brasileira em um contexto adverso. A luta por reconhecimento e preservação cultural é uma jornada contínua, e as ações dessas mulheres são fundamentais para garantir que as vozes afro-indígenas permaneçam ativas e respeitadas na sociedade contemporânea.

