O Valor do Turismo Afrocentrado na Bahia
A Bahia se destaca pelo entrelaçamento entre seu patrimônio histórico e o afroempreendedorismo local, fortalecendo a identidade cultural do povo negro que habita a região. Esse diálogo vai além do aspecto turístico: gera empregos, renda e impacta positivamente a qualidade de vida das comunidades envolvidas. A riqueza cultural do estado é um ativo que se manifesta nas tradições, festas populares, música, culinária e no sincretismo religioso, formando a base do turismo de matriz afro-centrada, conhecido como afroturismo.
Regiões que Preservam e Valorizam o Patrimônio Afro
O Recôncavo e a Chapada Diamantina são exemplos claros de como o afroempreendedorismo se alia à preservação dos bens culturais materiais e imateriais. Ambos possuem diversos patrimônios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Artístico e Cultural da Bahia (Ipac). Em Salvador, a Fundação Gregório de Matos (FGM) atua para manter essa herança viva, reforçando o valor histórico e cultural da cidade.
O Centro Histórico de Salvador, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), abriga o Pelourinho, um dos principais conjuntos arquitetônicos do estado. Igrejas e casarões coloniais, como a Igreja e Convento de São Francisco, enriquecem o cenário urbano, assim como o Elevador Lacerda e o Mercado Modelo. A cidade ainda guarda terreiros de Candomblé, a Pedra de Xangô e obras de arte urbana, como os painéis do artista Carybé, que compõem sua identidade cultural.
Afroempreendedorismo como Motor Econômico e Cultural
Ofícios ancestrais, como o das Baianas do Acarajé, são reconhecidos oficialmente por preservar técnicas e vestimentas tradicionais, fortalecendo a cultura local. Ângela Almeida, secretária da Secretaria estadual da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi), destaca que a cultura afro é um dos principais ativos da economia criativa na Bahia. Práticas culturais e saberes ancestrais se convertem em produtos, serviços e experiências que geram emprego, renda e desenvolvimento local.
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Ela ressalta que os terreiros movimentam uma cadeia produtiva que envolve vestuário, alimentos, ervas, artesanato, música, turismo comunitário e serviços culturais. A moda afro, a gastronomia de matriz africana e produtos autorais fortalecem pequenos negócios e ampliam oportunidades econômicas para a população negra. A Sepromi desenvolve programas como o CrediAfro e a Afrocolab para apoiar empreendedores com formação, acesso a crédito, comercialização e inovação.
Inclusão e Sustentabilidade no Turismo Baiano
Segundo dados do Sebrae, 54% dos afroempreendedores são mulheres e 71% faturam até quatro salários mínimos por mês, ressaltando o potencial do turismo para impulsionar esses negócios. O programa CrediAfro beneficiou mais de 200 empreendimentos até 2025 e já ultrapassou 3.500 atendimentos em 2026, com foco na inclusão produtiva e no fortalecimento da participação feminina.
Edicarlos Moreira, coordenador de Comércio e Serviços do Sebrae Bahia, afirma que o afroempreendedorismo é fundamental para tornar o turismo do estado mais autêntico, inclusivo e sustentável. Ele destaca que essa atividade permite que as comunidades protagonistas da história afro-brasileira sejam também beneficiadas economicamente, preservando saberes e patrimônios culturais.
Roteiros e Experiências que Contam Histórias Negras
Na capital, cresce a busca por experiências turísticas que vão além dos atrativos tradicionais. O Sebrae apoia a qualificação desses produtos, como o roteiro Caminho dos Orixás, que integra a plataforma internacional Feel Brasil, da Embratur em parceria com o Sebrae. Essa iniciativa reúne 101 experiências autênticas brasileiras para promoção no mercado internacional, ampliando a visibilidade do turismo afro-brasileiro e promovendo a internacionalização dos pequenos negócios.
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Chapada Diamantina: História e Cultura Afro Preservadas
Além das paisagens naturais, a Chapada Diamantina mantém viva a história do garimpo de ouro, diamantes e pedras preciosas. Cidades como Lençóis, Rio de Contas, Mucugê e a Vila de Igatu possuem conjuntos arquitetônicos tombados pelo Iphan e Ipac, com construções dos séculos XVIII e XIX. A secretária de Turismo de Lençóis, Laura Garcia, destaca que a integração entre patrimônio natural e cultural fortalece a identidade do destino, amplia a estadia dos visitantes e movimenta a economia criativa da região.
Manifestações populares e religiosas, como a Festa do Senhor Bom Jesus dos Passos e terreiros locais, foram reconhecidas como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan, reforçando a importância da região para a diversidade cultural nacional. Lençóis tem 88,07% da população negra, segundo o Censo 2022 do IBGE, composta por descendentes de escravizados que trabalharam nos garimpos. A valorização da cultura afro-brasileira se reflete na gastronomia, no artesanato, na música e no turismo de base comunitária.
O patrimônio histórico-cultural é pilar essencial para o turismo local, representando a memória e o modo de vida de uma população que construiu uma herança cultural rica a partir do ciclo do diamante. Essa conexão entre natureza, história e cultura forma uma paisagem cultural única, onde esses elementos são inseparáveis e fundamentais para a identidade do destino.

