Localização estratégica e tradição histórica
O secretário estadual da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura, Vivaldo Góis de Oliveira, defende que a Feira Nacional da Agropecuária (Fenagro) permaneça em Salvador, mas essa posição não considera aspectos técnicos fundamentais. A questão central não é enfraquecer a capital, mas sim identificar a cidade mais adequada para abrigar uma feira que representa produtores, animais, máquinas e cadeias produtivas distribuídas por toda a Bahia.
Feira de Santana, segunda maior cidade do estado com cerca de 660.806 habitantes em 2025, destaca-se por sua localização geográfica e estrutura logística. Situada no principal eixo rodoviário entre Salvador e o interior, a cidade nasceu do comércio de gado e mantém uma tradição pecuária que antecede até mesmo a criação da Fenagro.
Tradição pecuária consolidada em Feira de Santana
A Fenagro teve início em 1988 no Parque de Exposições da Bahia, em Salvador, mas Feira de Santana possui uma ligação histórica ainda mais antiga com a pecuária. A cidade surgiu como ponto de passagem para tropeiros e comerciantes que transportavam gado rumo a outras regiões, transformando-se em um núcleo urbano por meio do comércio de animais e mercadorias.
Além disso, a cidade já promovia exposições agropecuárias relevantes desde 1967, no Parque de Exposição João Martins da Silva, local que conta com uma tradição consolidada de feiras de gado de grande porte. Portanto, a história aponta para Feira como uma cidade organicamente ligada à atividade agropecuária do estado.
Logística eficiente é o diferencial
O principal argumento técnico a favor de Feira de Santana é sua posição como nó logístico rodoviário. Estudo da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) destaca o município como ponto central por onde passam mercadorias entre o Sul-Sudeste e o Nordeste, além de ser estratégico para a distribuição na Região Metropolitana de Salvador e no interior baiano.
As rodovias federais BR-116 e BR-324 convergem na cidade, que fica a aproximadamente 108 quilômetros da capital. Para criadores e transportadores vindos de diversos eixos rodoviários do interior, seguir até Salvador representa custos extras em combustível, pedágios, tempo e deslocamento em áreas metropolitanas.
Menor deslocamento garante bem-estar animal e eficiência
Outro ponto essencial é o transporte dos animais vivos. O Ministério da Agricultura destaca que boas práticas nesse transporte são fundamentais para evitar estresse, sofrimento e perdas econômicas. Mesmo viagens curtas provocam efeitos negativos nos bovinos, agravados por condições da estrada e manejo inadequado.
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Ao situar a Fenagro em um centro logístico interiorano, reduz-se o trajeto para boa parte dos fluxos de animais que chegam pelo interior da Bahia e de outros estados, o que melhora o bem-estar dos animais e a eficiência operacional do evento.
Agropecuária no interior e impacto econômico
A agropecuária baiana está concentrada majoritariamente fora de Salvador. Em 2024, o estado contou com 13,7 milhões de bovinos, o maior efetivo em meio século, além de cerca de 5,1 milhões de ovinos e 4,2 milhões de caprinos, distribuídos especialmente no interior.
Uma feira estadual deve facilitar o encontro dos agentes produtivos, como pecuaristas, cooperativas, indústrias e instituições financeiras. Nesse sentido, Feira de Santana aproxima a Fenagro desse público principal, ao contrário do que sugere a permanência na capital.
Feira de Santana: centro regional com infraestrutura adequada
Classificada pelo IBGE como Capital Regional B, Feira de Santana influencia uma região com cerca de 1,53 milhão de habitantes e 40 municípios. A cidade funciona como polo comercial, industrial e de serviços para o interior baiano, além de contar com uma rede hoteleira com aproximadamente 5 mil leitos.
Durante a Expofeira de 2024, a ocupação hoteleira atingiu 77,37%, com mais de 250 mil visitantes e negócios que somaram R$ 17 milhões. Em 2026, o Parque João Martins da Silva recebeu investimentos de R$ 5 milhões para ampliar sua capacidade, confirmando a cidade como sede apta para eventos agropecuários de grande porte.
Desafios e soluções para a infraestrutura
Salvador possui um parque de exposições maior, com 450 mil metros quadrados, contra 180 mil metros quadrados em Feira de Santana. A Fenagro de 2025 contou com cerca de 3 mil animais, enquanto o parque feirense suporta até mil. Portanto, transferir a feira exige investimentos públicos para ampliar e modernizar a infraestrutura em Feira.
Esse é um desafio viável e necessário para garantir que o evento mantenha sua dimensão e relevância, aproveitando os benefícios logísticos e econômicos que a cidade oferece.
Impacto econômico real na Bahia
A Fenagro movimenta cerca de R$ 120 milhões, concentrados hoje em Salvador. Descentralizar o evento para Feira de Santana pode redistribuir esse impacto econômico, fortalecendo o setor de hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços no interior baiano.
Essa descentralização não prejudica a capital, mas reconhece a Bahia como um estado territorialmente extenso, que pode se beneficiar economicamente ao valorizar centros regionais.
Fenagro pode aproximar campo e cidade em duas frentes
O argumento de que a Fenagro deve estar em Salvador para aproximar campo e cidade é válido, mas não exige que a feira principal permaneça na capital. O Governo da Bahia poderia manter uma exposição urbana focada em consumidores, enquanto concentra em Feira a estrutura para negócios, genética, máquinas e animais.
Assim, Salvador continuaria como vitrine e Feira de Santana se consolidaria como plataforma logística e comercial do agronegócio estadual.
Conclusão: racionalidade técnica deve prevalecer
A defesa da permanência da Fenagro em Salvador é compreensível politicamente, mas a análise técnica aponta Feira de Santana como local mais adequado, considerando logística, tradição pecuária, impacto econômico e infraestrutura em desenvolvimento.
Investir na modernização do parque feirense é o caminho para fortalecer o agronegócio baiano e descentralizar o desenvolvimento econômico, aproximando a feira dos produtores e das regiões pecuárias que sustentam a economia do estado.

